RAQUEL, EDIFICADORA DA CASA DE ISRAEL
Rute 4.11
É comum termos a impressão de que a história é escrita por pessoas extremamente
especiais. Convencemo-nos de que Deus somente inclui em seus projetos os fortes,
capacitados, habilidosos, perfeitos, os aclamados como heróis. No entanto,
pego-me, por vezes, imaginando como é para Deus ter de contar conosco. Já me
perguntei como é para Deus ter de contar comigo, ter de contar com os seres
humanos, que Ele sabe serem imperfeitos, sendo Ele próprio santo, perfeito. Fico
imaginando o tamanho da paciência de Deus, dependendo de pessoas, quando elas
são tão falhas. Deus, perfeito, olhando para nós e dizendo: “É, terá de ser com
ele mesmo!”. No nosso caso, somos diferentes. Eu mesmo olho para situações da
minha vida, para coisas que vivi, coisas da minha história e que, se fosse Deus,
diria: “Você, suba: acabou o seu tempo na terra.” Mas, Deus não é assim. Deus
olha para as pessoas (que são volúveis, indecisas, inconstantes, orgulhosas,
incrédulas, interesseiras, egoístas, resistentes, desapontam-se com facilidade,
desistem com rapidez e são até mesmo irreverentes) e sempre acha que pode contar
com elas. Deus não desiste! Ele é paciente, ponderado, compassivo, bondoso,
misericordioso, perdoador - graças a Deus!
De fato, muitos capítulos da história foram escritos por pessoas comuns, que não
possuíam nada de heróico em seu perfil. Essas pessoas eram parecidas conosco.
Eram pessoas que enfrentavam seus fantasmas, administravam suas crises, sofriam
com a sua condição, deparavam-se, dia após dia, com as suas fragilidades, seus
conflitos emocionais e suas debilidades sociais: gente de carne e osso, como eu
ou você. Essas pessoas também tinham contas a pagar, precisavam trabalhar,
tinham problemas financeiros e tinham uma família (daí não é necessário dizer
mais nada); e, se as denominamos “heroínas” porque diziam, “Venho em nome do
Senhor”, também, sabemos que outros de seus comentários incluíam, “Senhor,
mata-me e recebe logo o meu espírito!”. Talvez, o que as diferencie seja o fato
de que creram em seu chamado, apegaram-se às promessas, cumpriram seus propósito
na terra, apesar de si mesmas. Essas pessoas reconheceram os seus limites ?
muitas vezes a duras penas, caindo e levantando, batalhando e lutando ?, mas,
porque creram em Deus, fizeram aquilo que era necessário para cumprir os Seus
desígnios para suas vidas; tal como aconteceu com a personagem de hoje, de que
trata o capítulo quarto do Livro de Rute. No versículo 11 desse capítulo, lemos
o seguinte:
E todo o povo que estava na porta, e os anciãos, disseram: Somos testemunhas; o
SENHOR faça a esta mulher, que entra na tua casa, como a Raquel e como a Lia,
que ambas edificaram a casa de Israel;
A passagem trata da ocasião em que Boaz, tendo a intenção de se casar com Rute,
consulta os anciãos da cidade (para que lhe dêem a sua aprovação) e eles se
demonstram favoráveis, abençoando o seu casamento e desejando que Rute lhe seja
como esposa o mesmo que Raquel havia sido a Israel, “uma edificadora de sua
casa”. Ao lermos essa passagem, de Raquel sendo lembrada como alguém que
“edificou a casa de Israel”, tendemos a crer que Raquel era uma mulher
“super-poderosa”. Mas, veremos que não é esse o caso; que Raquel era uma moça
como qualquer outra, cuja vida se tornou extraordinária apenas por permitir que
Deus a “usasse” com poder.
A história de Raquel tem início com a história dos “patriarcas da fé”, que é
mais ou menos a seguinte: Deus escolhe um homem no desejo de criar um povo para
Si. O nome desse homem é Abrão, que reside na cidade de Ur, do povoado caldeu. O
chamado de Abraão (como mais tarde passou a se chamar) exige uma renúncia, ele
larga tudo rumo a uma “terra prometida” que jamais conhece, vive como peregrino,
e os seus descendentes e que vivem a promessa. Deus lhe diz: “Multiplicarei a
sua descendência como as estrelas do céu. De ti farei uma grande nação”. Abraão
e Sara, sua mulher, têm um filho chamado Isaque. Isaque tem dois filhos, Esaú e
Jacó, e a história de Raquel será contada a partir da (conturbada) história de
Jacó, num momento em que é obrigado a fugir do lugar onde vive, procurando apoio
na casa de seu tio Labão e passando a saber de sua existência, visto ser sua
prima. O capítulo 29 do Livro de Gênesis relata os detalhes desse encontro, nos
versículos 10 a 20:
E aconteceu que, vendo a Raquel, filha de Labão, irmão de sua mãe, e as ovelhas
de Labão, irmão de sua mãe, chegou Jacó, e revolveu a pedra de sobre a boca do
poço e deu de beber às ovelhas de Labão, irmão de sua mãe. E Jacó beijou a
Raquel, e levantou a sua voz e chorou. E Jacó anunciou a Raquel que era irmão de
seu pai, e que era filho de Rebeca; então ela correu, e o anunciou a seu pai. E
aconteceu que, ouvindo Labão as novas de Jacó, filho de sua irmã, correu-lhe ao
encontro, e abraçou-o, e beijou-o, e levou-o à sua casa; e ele contou a Labão
todas estas coisas. Então Labão disse-lhe: Verdadeiramente és tu o meu osso e a
minha carne. E ficou com ele um mês inteiro. Depois disse Labão a Jacó: Porque
tu és meu irmão, hás de servir-me de graça? Declara-me qual será o teu salário.
E Labão tinha duas filhas; o nome da mais velha era Lia, e o nome da menor
Raquel. Lia tinha olhos tenros, mas Raquel era de formoso semblante e formosa à
vista. E Jacó amava a Raquel, e disse: Sete anos te servirei por Raquel, tua
filha menor. Então disse Labão: Melhor é que eu a dê a ti, do que eu a dê a
outro homem; fica comigo. Assim serviu Jacó sete anos por Raquel; e estes lhe
pareceram como poucos dias, pelo muito que a amava.
O verso anterior, de número 9, diz algo interessante: Raquel era pastora. Por
conseguinte, Raquel era alguém que trabalhava incansavelmente, não apenas
vigiando as ovelhas, mas, dando-lhes água, encontrando os melhores pastos,
cuidando de seus ferimentos e até mesmo enfrentando situações de perigo (tais
como Davi relata sobre ursos, leões e outros animais perigosos) para
protegê-las. Quando alguém trabalha bastante assim, esse alguém demonstra que
está pronto, que está à disposição, que tem desejo não de um emprego, mas de
trabalhar. E uma pessoa assim vira alvo de Deus. Deus procura pessoas dispostas
a trabalhar. Deus não quer pessoas encostadas. Deus não procura pessoas
preguiçosas. Deus procura pessoas dispostas a se envolver, a pagar um preço.
Talvez, esse seja um método divino, uma vez que, ao lermos a Bíblia, nunca
encontraremos histórias de desocupados. Raquel foi escolhida justamente por seu
trabalho.
Raquel é também um exemplo de alguém com expectativa de crescer. E ela realmente
poderia se encher de esperanças: a escolha de Jacó de trabalhar sete anos para
se casar com ela (visto que a amava) representa mais do que sua oração por um
marido. Isso lhe chega como uma chamada para edificar algo especial e de valor
eterno ? os filhos de Raquel estariam entre os doze homens, que formariam as
doze famílias constituintes das doze tribos de Israel. Mas, a espera de Raquel
é, acima de tudo, uma espera de melhora, uma vez que a novidade inicial de
pastorear um rebanho, de ter conquistado a confiança de seu pai, com o passar
dos anos, transformou-se em tédio, em dias de espera por algo novo a acontecer,
em que se pode arriscar dizer que Raquel estaria até mesmo insatisfeita. Ela,
como muitos de nós, estava à espera de uma grande mudança, que ocorreria somente
em sete anos (tornando-se, por isso, quase intolerável), mas, que havia
resolvido (também como acontece conosco) esperar pacientemente, com confiança de
que um dia essa resposta chegaria.
No entanto, não foi isso o que aconteceu. Ao final dos sete anos, em que Raquel
finalmente se casaria com Jacó, seu pai, em vez de entregá-la a seu noivo,
entrega sua irmã Lia em seu lugar (Gen. 29: 21-24). Quando Jacó descobre que
fora enganado, o que (por algum motivo) só veio a acontecer na manhã seguinte ao
casamento (Gen. 29: 25), Jacó terá de concordar em trabalhar mais sete anos por
Raquel (Gen. 29: 27). Mas, esse não é o ponto. Primeiramente, observamos a
influência do “macro ambiente” nas vidas de Jacó e Raquel. Labão não oferecera
Raquel a Jacó porque, primeiramente, era costume casar a filha mais velha e
(portanto) Lia deveria ser-lhe entregue. Assim, tanto Jacó quanto Raquel
deveriam entender que o macro ambiente impunha situações totalmente fora de seu
controle, mas que seriam as que mais afetariam as suas vidas. Depois, é
necessário examinar a atitude de Raquel, de alguém que, em vez de se revoltar
contra seu pai ou sua irmã, ameaçar fugir de casa, incitar Jacó contra a sua
família, ou maldizer Deus, incorrendo em rebeldia, fez jus ao significado
hebraico de seu nome, “ovelha”, permanecendo em sujeição e obediência e
esperando pelo agir de Deus.
De fato, não seria nada fácil o que aguardaria Raquel desse tempo em diante.
Olhando para a história de Raquel, penso na expressão “Não dá para piorar mais”.
Depois de tudo o que sofrera, ao ser finalmente entregue ao amado (em
cumprimento aos demais sete anos que Jacó trabalharia) teve de dividi-lo com a
irmã. (Nesse momento, a provavelmente a própria Raquel deve ter pensado que não
haveria como as coisas piorarem mais). Não obstante a tamanho infortúnio ?
haveria, de fato, como as coisas piorarem no que pode ser descrito como uma
“seqüência de golpes” atingindo a vida de Raquel ?, o versículo 31 (do mesmo
capítulo 29) dá conta de que Lia era fértil e Raquel, estéril. Desse modo, além
da tristeza e frustração de não poder dar filhos a seu marido (mesmo sabendo que
ele a amava), Raquel teria de suportar a alegria da fertilidade da irmã que, até
o final do capítulo 29, no verso 35, já havia dado quatro filhos a Jacó. E
Raquel, então, peca. O primeiro versículo do capítulo 30 relata que Raquel teve
inveja de sua irmã e recebeu o furor de seu marido (Gen. 30: 2), pois, em um
momento de desespero, em que até mesmo oferecera sua serva a ele para que
tivesse filhos por meio dela (Gen. 30: 3 em diante), deixa expressar sua
angústia, ao que recebe uma reprimenda.
Isso nos faz lembrar da nossa própria condição, quando chegamos ao ponto em que
as coisas deveriam começar a acontecer, em que deveríamos começar a gerar e que,
em vez disso, percebemos que falhamos, que não conseguimos suprir as
necessidades para as quais fomos designados. De repente, nada de gerar, nem
frutificar e nos sentimos fracassados como pessoas, como profissionais e
ministerialmente. Sentimo-nos estéreis. E tudo realmente poderia estar perdido,
não fosse pelo nosso Deus, que, assim como atentou para o sofrimento de Raquel e
lhe concedeu um primeiro filho (Gen. 30: 22, 23), “tirando-lhe a vergonha” (Gen.
30: 23) e preparando o grande salvamento para o povo hebreu ? uma vez que esse
filho, José, seria vendido ao Egito mas, tornar-se-ia o segundo homem mais
importante dessa nação e responsável pela sobrevivência de seu povo ?, Deus não
se esquecerá daqueles que confiam Nele, daqueles que O buscam, daqueles que
acreditam. Ele tem o tempo certo para tudo e você, certamente, começará a gerar.
Quando você cumpre as etapas, espera o tempo certo, não força uma situação, não
força o coração de Deus, você está gerando a resposta. E quando Deus vem é para
honrá-lo, para mudar os seus dias!
Lembre-se do final da história de Raquel, de que Deus se lembrou dela; de que
era uma moça comum, que queria mostrar ao mundo que dava para confiar em Deus.
Ela queria que as pessoas olhassem para ela e dissessem: “O Deus dela é
maravilhoso, o Deus dela é poderoso”. Ela passou pelo que passou, mas a sua
história mudou. Houve um momento em que a maré virou e hoje é evidente para quem
quer que seja que o Deus de Raquel está vivo e é real. Essa era a sua motivação;
essa era a sua intenção; e deverá ser a sua própria. Vale a pena confiar em
Deus. Vale a pena esperar Nele. Por piores que sejam os seus sentimentos, por
mais difícil que seja o que Deus lhe pedir, por mais complexo que seja esperar o
tempo divino, faça aquilo que Deus lhe pede. Vai chegar um tempo em que as
coisas começarão a mudar. Vai chegar um tempo em que Deus se lembrará de você. E
quando as atenções de Deus se voltam para a sua vida, é o momento em que
verdadeiramente a sua sorte será mudada.
Deus o abençoe,
Ap. Rina