A BÍBLIA
Oséias 8.12
“Escrevi-lhe as grandezas da minha lei, porém essas são estimadas como coisa
estranha” (Oséias 8:12).
Esta é a queixa de Deus contra Efraim. Não é uma prova insignificante de Sua
bondade, que Ele se incline para repreender Suas criaturas errantes; é uma
grandiosa evidência de Sua disposição cheia de graça, que incline Sua cabeça
para observar os assuntos da terra. Se Ele quisesse, poderia Se envolver com a
noite como se fosse um vestido; poderia colocar as estrelas ao redor de Sua mão
como se fossem um bracelete e unir os sóis ao redor de Sua testa como um
diadema; poderia morar só, longe, muito acima deste mundo, acima do sétimo céu,
e contemplar com calma e silenciosa indiferença todas as atividades das
criaturas.
Poderia fazer como Júpiter que, segundo criam os pagãos, se assentava em
perpétuo silêncio, fazendo cenas às vezes com sua terrível cabeça, para fazer
com que os destinos se movam segundo lhe agrade, porém ignorando as coisas
pequenas da terra, e considerando-as indignas de chamar sua atenção; absorto em
seu próprio ser, absorto em Si mesmo, vivendo só e separado. E eu, como uma de
Suas criaturas, poderia subir ao cume de uma montanha e olhar para as estrelas
silenciosas e dizer-lhes: “Vós sois os olhos de Deus, porém não olhais para mim;
a vossa luz é um dom de Sua onipotência, porém esses raios não são sorrisos de
amor para mim. Deus, o poderoso Criador, me esqueceu; sou uma gota desprezível
no oceano da criação, uma folha seca no bosque dos seres viventes, um átomo na
montanha da existência. Ele não me conhece, estou só, só, só”.
Porém não é assim, amados. Nosso Deus é de uma ordem diferente. Ele observa a
cada um de nós. Não existe nem mesmo um pardal ou um verme que não se encontre
em Seus decretos. Não há uma pessoa sobre a qual não estejam os Seus olhos.
Nossos atos mais secretos são conhecidos por Ele. Qualquer coisa que façamos,
que suportemos ou soframos, o olho de Deus sempre descansa sob nós e Seu sorriso
nos cobre, pois somos Seu povo; ou a Sua desaprovação nos envolve, pois temos
nos apartado Dele.
Oh! Deus é dez mil vezes misericordioso, pois contemplando a raça do homem, não
finda com sua existência. Vemos por nosso texto que se interessa pelo homem,
porquanto disse a Efraim: “Escrevi-lhe as grandezas da minha lei, porém essas
são estimadas como coisa estranha”. Porém, vejam como quando observa o pecado do
homem, não o destrói ou despreza a ponta-pé, nem tampouco o sacode pelo pescoço
sobre o abismo do inferno até fazer sua mente cambalear pelo terror, para,
finalmente, lançá-lo nele para sempre; pelo contrário, Deus desce do céu para
argumentar com Suas criaturas, discute com elas, Se rebaixa, por assim dizer, ao
mesmo nível do pecador, lhe expõe Suas queixas e alega os Seus direitos. Oh!
Efraim, “escrevi-lhe as grandezas da minha lei, porém essas são estimadas como
coisa estranha”.
Venho esta noite como enviado de Deus, amigos meus, para tratar com vocês como
embaixador de Deus, para acusar de pecado a muitos de vocês; para fazer-lhes ver
sua condição, com o poder do Espírito; para convencer-lhes do pecado, da justiça
e do juízo vindouro. O crime do qual vos acuso é o pecado que lemos neste texto.
Deus escreveu as grandezas de Sua lei, e elas foram tidas como coisa estranha. É
precisamente sobre este bendito livro, a Bíblia, que pretendo falar no dia de
hoje. Aqui está meu texto: esta é a Palavra de Deus. Aqui está o tema de meu
sermão, um tema que demanda mais eloqüência do que a que possuo; um assunto
sobre o qual poderiam falar milhares de oradores ao mesmo tempo; um tema
poderoso, amplo e um assunto inesgotável que, ainda que consumindo toda a
eloqüência da eternidade, não permaneceria esgotado.
Esta noite tenho três coisas para dizer acerca da Bíblia, e as três se encontram
no meu texto. Primeira, Seu autor: “[Eu] escrevi-lhes”; segunda, seus temas: as
grandezas da lei de Deus; e terceira, seu tratamento generalizado: foram tidas
pela maioria dos homens como coisa estranha.
I. Primeiro, então, com relação a este livro, quem é O AUTOR? O texto nos
diz que é Deus. “Eu escrevi-lhes as grandezas de minha lei”. Aqui está minha
Bíblia, quem a escreveu? Abro-a e observo que se compõe de uma série de
tratados. Os primeiros cinco livros foram escritos por um homem chamado Moisés.
Passo as páginas, e vejo que há outros escritores tais como Davi e Salomão. Aqui
leio Miquéias, então Amós, então Oséias. Prossigo adiante e chego às luminosas
páginas do Novo Testamento, e vejo Mateus, Marcos, Lucas e João; Paulo, Pedro,
Tiago e outros; porém, quando fecho o livro, me pergunto: quem é o seu autor?
Podem estes homens, juntamente, reivindicar a autoria deste livro? São eles
realmente os autores deste extenso volume? Divide-se entre todos eles a honra?
Nossa santa religião responde: Não!
Este volume é a escrita do Deus vivo: cada letra foi escrita por um dedo
Todo-poderoso; cada palavra saiu dos lábios eternos, cada frase foi ditada pelo
Espírito Santo. Ainda que Moisés tenha sido usado para escrever suas histórias
com sua ardente pluma, Deus guiou essa pluma. Pode ser que Davi tenha tocado sua
harpa, fazendo que doces e melodiosos salmos brotassem de seus dedos, porém Deus
movia Suas mãos sobre as cordas vivas de sua harpa de ouro. Pode ser que Salomão
que tenha cantado os Cânticos de amor, ou pronunciado palavras de sabedoria
consumada, porém Deus dirigiu seus lábios, e fez eloqüente ao Pregador. Se
seguir ao trovejador Naum, quando seus cavalos aram as águas, ou a Habacuque
quando vê as tendas de Cusã em aflição; se leio Malaquias, quando a terra está
ardendo como um forno; se passo para as serenas páginas de João, que nos falam
de amor, ou para os severos e fogosos capítulos de Pedro, que falam do fogo que
devora os inimigos de Deus, ou para Judas, que lança anátemas contra os
adversários de Deus; em todas as partes vejo que é Deus quem fala.
É a voz de Deus, não do homem; as palavras são as palavras de Deus, as palavras
do Eterno, do Invisível, do Todo-poderoso, do Jeová desta terra. Esta Bíblia é a
Bíblia de Deus; e quando a vejo, parece que ouço uma voz que surge dela,
dizendo: “Sou o livro de Deus; homem, leia-me. Sou a escrita de Deus: abra
minhas folhas, porque foram escritas por Deus; leia-as, porque Ele é meu autor,
e O verá visível e manifesto em todas as partes”. “[Eu] escrevi-lhe as grandezas
da minha lei, porém essas são estimadas como coisa estranha”.
Como sabemos que Deus escreveu este livro? Não tentarei responder a esta
pergunta. Poderia fazê-lo se quisesse, porque há razões e argumentos
suficientes, porém não penso em roubar o vosso tempo nesta noite, expondo esses
argumentos à vossa consideração; sim, não farei isso. Se quisesse, poderia lhes
dizer que a grandeza do estilo está acima de qualquer escrita mortal, e que
todos os poetas que já existiram no mundo, com todas suas obras juntas, não
poderiam nos oferecer uma poesia tão sublime, nem uma linguagem tão poderosa
como podemos encontrar nas Escrituras.
Poderia insistir que os temas que se tratam na Bíblia estão muito acima do
intelecto humano; que o homem nunca poderia ter inventado as grandes doutrinas
da Trindade na Deidade; que o homem nunca poderia ter nos dito nada da criação
do universo; nenhum ser humano poderia ter sido o autor da sublime idéia da
Providência; que todas as coisas são ordenadas segundo a vontade de um grandioso
Ser Supremo, e que todas elas cooperam juntamente para o bem. Poderia falar-lhes
acerca de sua honestidade, pois relata as falhas de seus escritores; de sua
unidade, pois nunca se contradiz; de sua simplicidade magistral, para que o mais
simples a possa ler. E poderia mencionar centenas de coisas mais, que poderiam
demonstrar com claridade que o livro é de Deus. Porém, não vim aqui para provar
isso.
Sou um ministro cristão, e vocês são cristãos, ou professam sê-lo; e nenhum
ministro cristão precisa provar seu ponto de vista, trazendo os argumentos dos
pagãos para respondê-los. É a maior insensatez do mundo. Os infiéis, pobres
criaturas, não conhecem seus próprios argumentos até que nós lhes contemos, e
eles, juntando-os pouco a pouco, voltam a lançar-lhes como lanças sem pontas
contra o escudo da verdade. É uma insensatez tirar estes tições do fogo do
inferno, ainda que estejamos bem preparados para apagá-los. Deixemos que os
homens do mundo aprendam o erro por si mesmos; não sejamos propagadores e suas
falsidades. É certo que há pregadores que, não contando com os argumentos
suficientes, os tiram de qualquer parte; porém os homens eleitos pelo próprio
Deus não necessitam fazer isso; eles são ensinados por Deus, e Deus lhes supre
os temas, as palavras e o poder.
Talvez haja alguém aqui nesta noite que tenha vindo sem fé, um homem
racionalista, um livre pensador. Com esse homem não irei discutir. Confesso que
não estou aqui para participar de controvérsias, mas para pregar o que conheço e
sinto. Porém eu também já fui como esse homem. Houve uma hora má em minha vida,
quando soltei a âncora da minha fé; eu cortei o cabo das minhas crenças e, já
não querendo estar por mais tempo ao abrigo das costas da Revelação, deixei que
meu navio andasse a deriva, impulsionado pelo vento. Disse à razão: “Sê minha
capitã”; disse ao meu próprio cérebro: “sê meu timão”. E assim comecei minha
louca viagem. Graças a Deus tudo isso já terminou. Porem, lhes contarei sua
breve história.
Foi uma navegação precipitada pelo tempestuoso oceano do livre pensamento.
Conforme avançava, os céus começaram a escurecer; porém, para compensar essa
deficiência, as águas eram brilhantes com fulgores esplendorosos. Eu via que
subiam centelhas que me agradavam, e pensei: “Se isto é o livre pensamento, é
algo maravilhoso”. Meus pensamentos pareciam jóias e eu espalhava estrelas com
minhas duas mãos; porém imediatamente, no lugar daqueles fulgores de glória, vi
amargos amigos, ferozes e terríveis, surgindo das águas, e conforme prosseguia,
eles rangiam seus dentes e zombavam de mim; eles se apegaram à proa do meu navio
e me arrastaram. Enquanto eu, em parte, me gloriava da rapidez com que me movia,
me estremecia, contudo, pela velocidade terrível com que deixava para trás os
velhos pilares da minha fé.
Conforme seguia avançando a uma velocidade espantosa, comecei a duvidar da minha
própria existência; duvidava que o mundo existisse; duvidava que houvesse tal
coisa como meu próprio eu. Cheguei à própria borda dos domínios sombrios da
incredulidade. Fui até ao próprio fundo do mar da infidelidade. Duvidava de
tudo. Porém aqui Satanás enganou a si mesmo, porque a própria extravagância das
dúvidas me demonstrou o absurdo delas. Justamente quando vi o fundo desse mar,
escutei uma voz que dizia: “E pode esta dúvida ser verdade?” Por causa deste
pensamento voltei à realidade. Despertei-me desse sono de morte, que, Deus o
sabe, poderia ter condenado minha alma e destruído meu corpo, se não tivesse
despertado.
Quando me levantei, a fé tomou o timão; a partir desse momento já não duvidei. A
fé conduziu meu navio de volta; a fé gritava: “Longe daqui, longe daqui!” Lancei
minha âncora no Calvário; alcei meus olhos a Deus, e eis-me aqui vivo e fora do
inferno. Portanto, eu digo o que sei. Naveguei nessa viagem perigosa; regressei
ao porto são e salvo. Peça-me que seja outra vez um incrédulo! Não, já o provei.
Foi doce ao princípio, mas amargo depois. Agora, atado ao Evangelho de Deus mais
firmemente do que nunca, parado sobre uma rocha mais dura do que o diamante,
desafio os argumentos do inferno a que me movam, “porque eu sei em quem tenho
crido, e estou certo de que ele é poderoso para guardar o meu depósito até
aquele dia”.
Porém, não vou refutar nem argumentar nesta noite. Vocês professam ser homens
cristãos, pois do contrário não estariam aqui. Vossa profissão pode ser falsa; o
que vocês dizem ser, pode ser exatamente o contrário do que realmente são.
Porém, ainda assim, eu suponho que todos vocês admitem que esta é a Palavra de
Deus. Portanto, um ou dois pensamentos sobre isto. “[Eu] escrevi-lhe as
grandezas da minha lei”.
Primeiro, meus amigos, examinem este volume e admirem sua autoridade. Este não é
um livro comum. Não contém os ditos dos sábios da Grécia, nem os discursos dos
filósofos da antiguidade. Se estas palavras tivessem sido escritas pelo homem,
poderíamos rejeitá-las; porém, oh. Deixe-me pensar um pensamento solene: que
este livro é a letra de Deus, que estas são Suas palavras. Deixe-me investigar
sua antiguidade: está datado das colinas do céu. Permita-me que olhe suas
letras: relampejam glória em meus olhos. Deixe-me ler seus capítulos: seu
significado é grandioso e contêm mistérios escondidos. Voltemos-nos para as
profecias: estão cheias de maravilhas inefáveis. Oh, livro dos livros! E foste
tu escrito por meu Deus? Então, me prostro diante de ti. Tu livro de vasta
autoridade; tu és uma proclamação do Imperador do Céu. Longe esteja de mim
exercitar minha razão para contradizer-te. Razão, tua função é considerar e
averiguar o que este volume quer dizer, e não estabelecer o que deveria dizer..
Vamos, vós, minha razão e meu intelecto, sentem-se e escutem, porque estas
palavras são as palavras de Deus. Sinto-me incapaz de estender-me neste
pensamento. Oh, se tu pudesses recordar sempre que esta Bíblia foi verdadeira e
realmente escrita por Deus! Oh! Se lhes houvesse permitido entrar nas câmaras
secretas do céu, e tivessem podido contemplar a Deus quando tomava Sua pluma e
escrevia estas letras, então com seguranças as respeitariam. Porém, são
efetivamente o manuscrito de Deus, tanto como se vocês tivessem visto Deus
escrevendo-as. Esta Bíblia é um livro de autoridade, é um livro autorizado, pois
Deus o escreveu. Oh, temam, não a desprezem; observem sua autoridade, porque é a
palavra de Deus.
Então, posto que Deus a escreveu, notem sua veracidade. Se eu a tivesse escrito,
haveria vermes críticos que de imediato a atropelariam, e a cobririam com suas
larvas malvadas. Se eu a tivesse escrito, não faltariam homens que a
despedaçassem imediatamente, e talvez com muita razão.. Porém, esta é a Palavra
de Deus. Aproximem-se, investiguem, vós críticos, e encontrem uma falha;
examinem-na desde seu Gênesis até seu Apocalipse, e encontrem um erro. Esta é
uma veia de puro ouro, sem mescla de quartzo, ou de qualquer outra substância
terrena. Esta é uma estrela sem mancha, um sol de perfeição, uma luz sem sombra,
uma lua sem sua palidez, uma glória sem penumbra.
Oh, Bíblia, não se pode dizer de nenhum outro livro que seja perfeito e puro;
porém, nós podemos declarar de ti que toda a sabedoria se encontra encerrada em
ti, e não há nenhuma partícula de insensatez. Este é o juiz que põe fim a toda
discussão, ali onde a inteligência e a razão fracassam. Este livro não tem
mancha de erro; mas é puro, sem mesclas, a verdade perfeita. Por quê? Porque
Deus o escreveu. Ah! Acusem Deus de erro, se querem; digam-Lhe que Seu livro não
é o que deveria ser.
Tenho ouvido de homens cheio de orgulho e falsa modéstia, que gostariam de
alterar a Bíblia, e (quase me ruborizo de dizer) tenho ouvido de alguns
ministros que alteraram a Bíblia de Deus, porque tinham medo dela. Vocês nunca
ouviram um homem dizer: “Aquele que crer e for batizado, será salvo; mas o que
não crê” — o que a Bíblia diz? — “Será condenado”. Porém, acontece que isto é
algo rude, portanto eles dizem: “será desaprovado”. Cavaleiros, eliminem o
veludo de suas bocas, e preguem a Palavra de Deus; não necessitamos de nenhuma
de suas alterações. Tenho escutado algumas pessoas que, orando, ao invés de
dizer: “fazer firme vossa vocação e eleição”, dizem: “fazer firme vossa vocação
e salvação”. É uma lástima que não tenham nascido quando Deus morava nos tempos
remotos, há muito, muito tempo, para que tivessem podido ensinar a Deus como
escrever. Oh, desonestidade além de todo limite! Oh, orgulho desmedido! Tratar
de ditar ao Sábio dos sábios, de ensinar ao Onisciente e de instruir ao Eterno!
É estranho que haja homens tão vis que usem o canivete de Jeioaquim para mutilar
passagem da Palavra, porque têm mal sabor. Oh, vocês que sentem aversão por
certas porções da Santa Escritura, tenham a certeza de que seu gosto é
corrompido e que a vontade de Deus não se sujeita à pobre opinião de vocês. Tua
desaprovação é precisamente a razão pela qual Deus a escreveu; porque não se
deve acomodar a ti, nem tens direito de ser agradado. Deus escreveu o que não te
agrada: escreveu a verdade. Oh, prostremos-nos em reverência diante dela, pois
Deus a inspirou. É verdade pura. Desta fonte manda aqua vitae — a água da vida —
sem nenhuma partícula de terra; deste sol nascem raios de esplendor sem sombra
alguma. Bendita Bíblia; tu és toda a verdade.
Antes de deixar este ponto, detenhamos-nos a considerar a natureza
misericordiosa de Deus, em ter-nos escrito uma Bíblia. Ah! Ele poderia ter-nos
deixado sem ela, que tatearíamos nosso caminho de trevas, como os cegos buscam a
parede; Ele poderia ter-nos deixado em nosso extravio, com a estrela da razão
como nosso único guia. Recordo uma história do Sr. Hume, que constantemente
afirmava que a luz da razão é suficiente em abundância. Estando na casa de um
bom ministro de Deus numa noite, havia estado discutindo sobre este assunto,
manifestando sua firme convicção na suficiência da luz da natureza. Ao sair, o
ministro lhe ofereceu uma vela, para iluminar, enquanto ele descia a escadaria.
Ele disse: “não, a luz da natureza será suficiente; a luz me bastará”. Porém,
ocorreu que uma nuvem estava ocultando a lua, e ele caiu, escadaria abaixo.
“Ah!”, disse o ministro, “apesar de tudo, teria sido melhor haver tido uma
pequena luz daqui de cima, Sr. Hume”.
Então, ainda que supondo que a luz natural fosse suficiente, seria melhor que
tivéssemos um pouco de luz de cima, e desta maneira estaríamos seguros de
estarmos certos. É melhor ter duas luzes do que uma. A luz da criação é muito
brilhante. Podemos ver a Deus nas estrelas; Seu nome está escrito com letras de
ouro no rosto da noite; podem descobrir Sua glória nas orlas do oceano, sim, e
nas árvores do campo. Porém, é melhor ler em dois livros, do que em um. Vocês O
encontrarão mais claramente revelado, porque Ele mesmo escreveu este livro e nos
deu a chave para entendê-lo, se vocês têm o Espírito Santo. Amados irmãos, demos
graças a Deus por esta Bíblia. Amemo-la e consideremo-la mais preciosa do que o
ouro mais fino.
Porém, permitam-me dizer uma coisa, antes de passar para o segundo ponto. Se
esta é a Palavra de Deus, que será de alguns de vocês que não a tem lido durante
todo o último mês? “O senhor disse um mês? Eu não a li durante todo este ano!”
Ah, e muitos de vocês não a leram nunca. A maioria das pessoas trata a Bíblia de
uma maneira mui cortês. Têm uma edição de bolso belamente encadernada, a
envolvem num pano branco, e assim a levam ao lugar do culto. Quando regressam
para casa, a guardam numa gaveta até o próximo Domingo pela manhã. Então, lá
voltam a tirar para um passeio, e a levam à capela; tudo quanto a pobre Bíblia
recebe é este passeio dominical. Esse é seu estilo de tratar este mensageiro
celestial. Há pó suficiente sobre algumas de suas Bíblias para escrever
“condenação” com seus próprios dedos. Muitos de vocês nem sequer a tem folheado
a muito, muito, muito tempo e, que pensam?
Digo-vos palavras duras, porém palavras verdadeiras. Que dirá Deus, finalmente?
Quando chegarem a Sua presença, Ele perguntará: “Leste minha Bíblia?” “Não”.
“Escrevi-te uma carta de misericórdia, a leste?” “Não”. “Rebelde! Enviei-te uma
carta, convidando-te a Mim, a leste alguma vez” “Senhor, nunca rompi o selo:
sempre a guardo bem fechada”. “Maldito”, diz Deus, “então, tu mereces o inferno;
se te enviei uma epístola de amor, e nem sequer quiseste romper o selo, que
farei contigo?” Oh! Não permitam que isso lhes suceda. Sejam leitores da Bíblia,
sejam esquadrinhadores da Bíblia.
II. Nosso segundo ponto é: OS TEMAS DOS QUAIS A BÍBLIA TRATA. As palavras
do texto são estas: “[Eu] escrevi-lhe as grandezas da minha lei”. A Bíblia fala
de grandes coisas e somente de grandes coisas. Não há nada na Bíblia que não
seja importante. Cada versículo contém um solene significado, e se, todavia não
o temos encontrado, esperamos fazê-lo. Vocês têm visto múmias, cobertas com
dobras de pano de linho. Bem, a Bíblia é Deus é algo parecido; há numerosos
rolos de linho branco, tecidos no tear da verdade; de maneira que terão que
continuar desatando, rolo após rolo, até encontrar o verdadeiro significado do
que está escondido; e quando crerem ter encontrado, ainda assim continuarão
desatando, desatando, e durante toda a eternidade vocês estarão desatando as
palavras deste grandioso volume. Não há nada na Bíblia que não seja grandioso.
Permitam-me dividir, para ser mais breve. Primeiro todas as coisas nesta Bíblia
são grandiosas; segundo, algumas coisas as mais grandiosas de todas.
Todas as coisas da Bíblia são grandiosas. Algumas pessoas pensam que não importa
a doutrina na qual alguém crê; que algo secundário a que igreja você assiste;
que todas as denominações são iguais. Há um ser, a senhora Intolerância, a qual
eu detesto mais do que ninguém neste mundo, e a qual jamais fiz algum
cumprimento ou elogio; porém, há outra pessoa a qual odeio igualmente; trata-se
do senhor Latitudinarismo [1], indivíduo bem conhecido que descobriu que todos
somos iguais. Agora, eu creio que uma pessoa pode ser salva em qualquer igreja.
Algumas têm sido salvas na igreja de Roma, uns poucos homens benditos cujos
nomes poderia citar aqui. Também sei bendito seja Deus, que grandes multidões
são salvas na igreja da Inglaterra; nela há uma hoste de sinceros e piedosos
homens de oração. Creio que todos os ramos do protestantismo cristão têm um
remanescente segundo a eleição da graça; e que necessitam ter, algumas delas, um
pouco de sal, pois do contrário se corromperiam. Porém quando disso isso, vocês
imaginam que coloco todas elas no mesmo nível? Estão todas igualmente certas?
Uma diz que o batismo de infantes é correto, outras afirmam que não é correto.
Alguns dizem que ambas têm razão, porém eu não vejo assim. Uma ensina que somos
salvos pela graça soberana, outra diz que não, senão que é nosso livre-arbítrio
que nos salva; contudo, outras dizem que as duas coisas estão certas. Eu não
entendo assim. Uma diz que Deus ama o Seu povo e que nunca deixará de amá-lo;
outra afirma que Ele não amou o Seu povo antes que esse povo O amasse; que umas
vezes o ama e outras deixam de amá-lo, e Se afasta deles. Ambas podem ter razão
no essencial, porém nunca quando uma diz “Sim” e outra “Não”. Para ver assim
necessitaria de um par de óculos, que me capacitassem a olhar para trás e para
frente ao mesmo tempo. Não pode ser senhores, que ambas tenham razão, apesar de
que há quem diga que as diferenças não são essenciais.
Este texto diz: “[Eu] escrevi-lhe as grandezas da minha lei”. Não há nada na
Bíblia de Deus que não seja grandioso. Vocês nunca pararam alguma vez para ver
qual é a religião mais pura? “Oh”, dizem, “nunca nos molestamos com isso. Nós
simplesmente vamos aonde nosso pai e nossa mãe foram”. Ah! Essa é certamente uma
razão muito profunda. Vocês vão onde seus pais foram. Eu creia que vocês eram
pessoas sensatas, e nunca pensei que se deixaram levar pelos outros, em vez de
por sua própria convicção. Eu amo meus pais acima de tudo que respira, e o
simples fato de que creram que uma coisa é verdade, me ajuda a pensar que o é;
porém, eu não lhes segui. Pertenço a uma denominação diferente, e dou graças a
Deus por isso. Posso recebê-los como irmãos e irmãs em Cristo, mas nunca pensei
que, porque eles foram uma coisa, eu tinha que ser o mesmo. Nada disso. Deus me
deu um cérebro e devo utilizá-lo; e se vocês têm algum intelecto, devem usá-lo
também.
Nunca digam que não importa. Claro que importa. Tudo quanto Deus escreveu aqui é
de importância eminente; Ele jamais teria escrito uma coisa que fosse
indiferente. Tudo quanto há aqui tem um valor; portanto, esquadrinhem todos os
temas, provem tudo pela Palavra de Deus. Não tenho nenhuma objeção a que tudo o
que eu pregue seja provado por este livro. Dêem-me somente um auditório
imparcial e nenhum favor especial, e este livro; e se digo algo contrário a ele,
retratar-me-ei no domingo seguinte. Por isto me mantenho firme ou caio. Busquem
e olhem, porém nunca digam: “Não importa”. Quando Deus diz algo, sempre deve ser
importante.
Porém, ainda que todas as coisas na Palavra de Deus sejam importantes, nem tudo
é igualmente importante. Há certas verdades vitais e fundamentais que devem ser
cridas, ou do contrário o homem não poderá ser salvo.. Se quiserem saber o que é
que devem crer para serem salvos, encontrarão as grandezas da lei de Deus entre
estas duas capas; todas estão contidas aqui. Como compêndio ou resumo das
grandezas da lei, recordo o que um velho amigo meu disse certa vez: “Ah! Pregue
os três R's e Deus sempre te abençoará”. Eu perguntei: “O que são estes três R's?”
E ele me respondeu: “Ruína, Redenção e Regeneração”. Estas três coisas contêm a
essência e o todo da teologia. “R” de Ruína. Todos fomos arruinados na queda,
todos nos perdemos quando Adão pecou e todos estamos arruinados pelas nossas
próprias transgressões; todos estamos arruinados pelos nossos corações
perversos, por nossos desejos maus, e todos estaremos arruinados, a menos que a
graça nos salve. Então, vêm o segundo “R”, de redenção. Somos redimidos pelo
sangue de Cristo, um Cordeiro sem mancha, nem contaminação; somos resgatados por
Seu poder, somos redimidos por Seus méritos; e resgatados por Sua força.
Continuando, temos o “R” de regeneração. Se quisermos ser perdoados, temos
também que ser regenerados, porque ninguém pode ser partícipe da redenção sem
ser regenerado. Podemos ser tão bons como queiramos, e servir a Deus segundo o
imaginemos, segundo queiramos; porém, se não tivermos sido regenerados, se não
temos um coração novo, se não nascemos de novo, ainda estamos na primeira “R”,
isto é, na ruína.
Este é um pequeno resumo do Evangelho, porém creio que há um outro melhor nos
cinco pontos do calvinismo: Eleição segundo a presciência de Deus, a depravação
natural e a pecaminosidade do homem, a redenção particular pelo sangue de
Cristo, o chamado eficaz pelo poder do Espírito e a perseverança final pelo
poder de Deus. Para sermos salvos, devemos crer nestes cinco pontos; porém não
gostaria de escrever um credo como o de Atanásio, que começa assim: “Todo aquele
que quiser ser salvo, deverá crer em primeiro lugar na fé católica, a qual é
esta”; ao chegar a este ponto, teria que me deter porque não saberia como
continuar. Sustento a fé católica da Bíblia, toda a Bíblia e nada mais que a
Bíblia. Não me diz respeito elaborar credos; senão que suplico que esquadrinhem
as Escrituras, porque elas são a palavra de vida.
Deus disse: “[Eu] escrevi-lhe as grandezas da minha lei”. Duvidam de sua
grandeza? Crêem que não são dignas da atenção de vocês? Homem penses por um
momento, onde te encontras agora?
“Eis aqui, num estreito pedaço de terra, na metade de mares sem limites; uma
polegada de tempo, o espaço de um momento, pode me alojar naquele lugar
celestial,
Ou me encerrar no inferno”.
Recordo que uma vez estava na paria, numa estreita faixa de terra, sem me
preocupar que a maré pudesse subir. As ondas lavavam constantemente ambos os
lados, e envolto em meus pensamentos, permaneci ali por um longo tempo. Quando
quis regressar, encontrei-me ante uma dificuldade: as ondas tinham cortado o
caminho. Da mesma maneira, todos nos caminhamos cada dia por uma estreita senda,
e há uma onda que sobe cada vez mais; vejam como está perto de seus pés; e,
veja! Outra se aproxima a cada tic-tac do relógio: “Nossos corações, como surdos
tambores, estão redobrando marchas fúnebres a caminho da sepultura”. Cada
momento que vivemos é um avanço para a sepultura. Porém, este Livro me diz que,
se sou convertido, quando morrer, receberei um céu de gozo e amor; os anjos me
esperarão com seus braços abertos, e eu, levado pelas potentes asas dos
querubins, ultrapassarei o relâmpago e me elevarei para além das estrelas, ao
trono de Deus, para morar ali para sempre.
“Longe de um mundo de pecado e dor, morarei ali sempre com Deus.
Oh, isto faz com que meus olhos derramem lágrimas quentes, isto faz com que meu
coração se torne grande demais para o meu peito, e meu cérebro gire ante um só
pensamento de: “Jerusalém, meu lugar feliz, Teu nome é sempre doce para mim”.
Oh! Essa doce cena mais acima das nuvens; doces campos revestidos de verde vivo
e rios de delícia. Não são estas coisas grandiosas? Porém então, pobre alma não
regenerada, a Bíblia diz que, se tu estás perdido, tu estás perdido para sempre;
disse-te que se morres sem Cristo, sem Deus, não há esperança para ti; que há um
lugar sem nenhum raio de esperança, onde lerás gravadas com letras de fogo: “tu
conhecias teu dever, porém não o cumpriste”; elas te diz que serás lançado de
Sua presença com um: “Apartai de mim, maldito”. Acaso não é grandioso tudo isto?
Sim, senhores, assim como o céu é desejável, assim como o inferno é terrível,
assim como o tempo é breve, assim como é eternidade infinita, assim como a alma
é preciosa, assim como a dor deve ser evitada, assim como o céu deve ser
buscado; assim também Deus é eterno e como Suas palavras são certas, estas
coisas são grandiosas; são coisas que vocês devem escutar.
III. Nosso último ponto é: O TRATAMENTO QUE A BÍBLIA RECEBE NESTE MUNDO.
A Bíblia é considerada como uma coisa estranha. O que significa a Bíblia ser
considerada como uma coisa estranha? Em primeiro lugar, quer dizer que é
completamente alheia a muitas pessoas, porque nunca a lêem. Recordo que, em
certa ocasião, eu estava lendo a sagrada história de Davi e Golias, e estava uma
pessoa presente, de idade avançada, que me disse: “Meu Deus! Que história
interessante; em que livro está?”.
Também me vem à memória outra pessoa que, falando comigo em privado, lhe falei
acerca de sua alma, e ela me disse quão profundo era seu sentimento, já que
tinha enormes desejos de servir ao Senhor, porém encontrava outra lei em seus
membros. Eu abri em Romanos e li: “Porque não faço o bem que quero, mas o mal
que não quero, esse pratico”. Ela disse: “Isto está na Bíblia? Eu não sabia
disso”. Não a culpei por sua falta de interesse na Bíblia até então; porém eu
não poderia deixar de me maravilhar em encontrar pessoas que não soubessem nada
sobre tal passagem. Ah! Vocês sabem mais acerca dos livros de contabilidade de
seus negócios do que sobre a Bíblia; mais acerca dos diários de suas vidas do
que sobre o que Deus escreveu. Muitos de vocês podem ler um romance do princípio
ao fim, e que proveito tiram disso? Um bocado de pura espuma ao ter terminado.
Porém, não podem ler a Bíblia; este manjar sólido, perdurável, substancioso e
que satisfaz, permanece sem ser provado, guardado no armário da negligência;
enquanto tudo quando o homem escreve, capturado diariamente, é devorado com
avidez. “[Eu] escrevi-lhe as grandezas da minha lei, porém essas são estimadas
como coisa estranha”. Vocês nunca a leram. Tenho essa dura acusação contra
vocês. Talvez vocês respondam que não devo culpar-lhes por uma coisa assim;
porém, sempre penso que mais vale ter uma opinião pior de vocês, do que uma
demasiadamente boa. Culpo-lhes disto: vocês nunca lêem sua Bíblia. Alguns de
vocês nunca a leram completamente, e seu coração lhe diz que o que estou dizendo
é verdade. Não sois leitores da Bíblia. Vocês afirmam que têm uma Bíblia em
casa: acaso penso que são tão pagãos que não tenham uma Bíblia em casa? Porém,
quando foi à última vez que a leram? Como sabem que os óculos que perderam há
três anos atrás, não estão na mesma gaveta da Bíblia? Muitos de vocês não têm
lido nem uma só página desde há muito tempo, e Deus poderia dizer-lhes: “[Eu]
escrevi-lhe as grandezas da minha lei, porém essas são estimadas como coisa
estranha”.
Há outros que lêem a Bíblia, porém quando a lêem, dizem que é terrivelmente
árida. Aquele jovem que está lá diz que ela é muito “enfadonha”; essa é a
palavra que ele usa. Ele diz: “Minha mão me disse: quando for à cidade, leia um
capítulo todo dia. E eu prometi para agradá-la. Oxalá não houvesse feito. Não li
nenhum capítulo, nem ontem nem antes de ontem. Estive muito ocupado. Não pode
evitá-lo”.. Tu não amas a Bíblia, não é verdade? “Não, não encontro nela nada
interessante”. Ah! Isso é o que eu pensava também. Mas, há pouco tempo atrás, eu
não podia ver nada nela. Sabes por quê? Porque os cegos não podem ver, podem?
Porém, quando o Espírito toca as escamas dos olhos, estas caem, e quando Ele
põem colírio nos olhos, a Bíblia se torna preciosa.
Recordo de um ministro que foi um dia visitar uma senhora, já anciã, e se propôs
de levar-lhe o consolo de algumas das preciosas promessas da Palavra de Deus.
Buscando, encontrou na Bíblia da senhora, escrito na margem, um “P”, e
perguntou: “Que significa isto?” “Isto quer dizer preciosa, senhor”. Pouco mais
adiante descobriu um “P” e um “E”, escritos juntos, e voltou a perguntar seu
significado, e ela lhe respondeu: isto quer dizer 'provada e experimentada',
porque eu já a provei e já a experimentei”. Se vocês já provaram e
experimentaram a palavra de Deus, se é preciosa para suas almas, então vocês são
cristãos; porém, essas pessoas que desprezam a Bíblia, “não têm parte nem sorte
neste assunto”. Se lhes parece árida, vocês estarão áridos no final, no inferno.
Se não a estimam como algo melhor que seu alimento diário necessário, não há
nenhuma esperança para vocês, porque carecem da maior evidência de seu
Cristianismo.
Porém, ah, ah, o pior está por vir. Há pessoas que odeiam a Bíblia, e também a
desprezam. Acaso temos algumas dessas pessoas aqui? Alguns de vocês disseram:
“Vamos ouvir o que o jovem pregador tem a dizer”. Pois bem, isto é o ele tem
para vos dizer: “Vede, ó desprezadores, admirai-vos e desaparecei” (Atos 13:41).
Isto é o ele tem para vos dizer: “Os ímpios serão lançados no Inferno, e todas
as que se esquecem de Deus” (Salmos 9:17). E também tem que vos dizer isto: “Nos
últimos dias virão escarnecedores com zombaria andando segundo as suas próprias
concupiscências” (2 Pedro 3:3). Porém mais ainda, lhes diz hoje que se querem
ser salvos, devem encontrar a salvação aqui.
Portanto, não menosprezem a Bíblia: esquadrinhe-la, leiam-na, venham até ela.
Repouse com certeza, oh zombador, que tuas gargalhadas não podem alterar a
verdade, nem tuas zombarias podem te livrar da condenação inevitável. Ainda que
em tua dureza fizesses um pacto com a morte e firmasses um trata com o inferno,
ainda assim, a veloz justiça te alcançaria, e a poderosa vingança te fulminaria.
Em vão zombas e ridicularizas, pois as verdades eternas são mais poderosas que
todos teus sofismas; teus engenhosos ditos não podem alterar a verdade divina de
uma só palavra deste volume de Revelação. Oh! Por que contende com teu melhor
amigo e maltrata teu único refúgio? Ainda há esperança para o zombador.
Esperança nas veias do Salvador. Esperança na misericórdia do Pai. Esperança na
obra onipotente do Espírito Santo.
Terminarei quando tiver dito mais uma palavra. Meu amigo, o filósofo, diz que é
muito bom que eu exorte as pessoas a lerem a Bíblia; porém, ele pensa que há
outras muitas ciências grandiosas, mais interessantes e úteis que a teologia.
Muito agradecido senhor, por sua opinião. A que ciência você se refere? À
ciência de dissecar escaravelhos e colecionar mariposas? “Não, certamente não é
a essa”. À ciência de analisar as rochas e de tomar mostras da terra e falar-nos
de seus diferentes extratos? “Não, tampouco a essa precisamente”. À que ciência,
pois? Ele me responde: “Todas as ciências em geral são mais importantes que a
Bíblia”. Ah! Senhor, essa é sua opinião, e fala dessa maneira porque estás longe
de Deus. Pois a ciência de Jesus Cristo é a mais excelente das ciências. Que
ninguém deixe a Bíblia porque não é um livro culto e de sabedoria. Ela o é..
Querem saber de astronomia? Aqui está: Ela fala do Sol da Justiça e da Estrela
de Belém. Querem saber de botânica? Aqui está: Ela fala de algumas de renome: o
Lírio dos Vales e a Rosa de Saron. Querem saber de geologia e mineralogia? Podem
aprender isso na Bíblia: podem ler acerca da Rocha dos Séculos e da Pedrinha
Branca com um novo nome gravado, o qual ninguém conhece, senão aquele que o
recebe. Querem estudar história? Aqui estão os anais mais antigos do gênero
humano. Qualquer que seja a ciência de que se trate, venham e busquem-na neste
livro. Essa ciência está aqui. Venham e bebam desta formosa fonte de
conhecimento e sabedoria, e descobrirão que serão feitos sábios para salvação.
Sábios e ignorantes, crianças e homens, cavalheiros de cabelos brancos, jovens e
moças — a vocês falo lhes peço e lhes suplico: respeitem suas Bíblias e
esquadrinhem-nas, porque nelas vós pensais ter a vida eterna, e são elas que dão
testemunho de Cristo.
Terminei. Voltemos para casa e ponhamos em prática tudo quanto ouvimos. Conheço
uma senhora que, quando lhe foi perguntado sobre o que recordava do sermão do
pastor, disse: “Não recordo nada do mesmo. Era sobre pesos falsos e medidas
fraudulentas, e eu não recordo nada, exceto de que quando cheguei em casa, tive
que queimar minhas medidas de grão”. Assim, se vocês recordarem, quando chegarem
em suas casas, de queimar suas medidas de grão; se recordarem, quando chegarem
em suas casas, de lerem a Bíblia, eu terei dito o suficiente. Queira Deus, em
Sua infinita misericórdia, quando lerem a Bíblia, por em suas almas os raios
iluminadores do Sol da Justiça, pela obra do sempre adorável Espírito; deste
modo, tudo quanto lerem será de proveito e para salvação.
Podemos dizer da BÍBLIA: “És o gabinete do conselho revelado de Deus! Onde
venturas e angústias estão de tal maneira ordenadas que todo homem sabe o que
lhe corresponderá. Exceto por seu próprio erro ou falsa aplicação. És o índice
da eternidade. Não poderá deixar de receber a eterna felicidade.
Quem se guie por este mapa, Nem pode se equivocar quem fale por ele. É o livro
de Deus. Quero dizer É o Deus dos livros, e peço que aquele que olhe. Com ira
para essa expressão, como muito ousada, Abafe seus pensamentos em silêncio, até
encontrar outra”.
C. H. Spurgeon
NOTAS DO TRADUTOR: [1] - Latitudinarismo: liberdade de opinião, especialmente em
assuntos pertencentes às crenças religiosas. Um Sermão (Nº. 0015) - Pregado na
Manhã de Domingo, 18 de Março de 1855 no Exeter Hall, Strand— Londres
—Inglaterra. Traduzido por: Felipe Sabino de Araújo Neto
Marcos Habib