CONSAGRADO PARA CUIDAR
Levítico 8
O capítulo 8 de Levítico é o cumprimento da ordem dada em Êxodo 29 em relação à
consagração dos sacerdotes (cohanim), Arão e seus filhos, dada por Moisés, o
libertador e líder do povo de Israel. É um ato de extrema seriedade que
descreve, de modo gráfico a responsabilidade dos consagrandos, que eram os
guardiães espirituais do povo de Deus.
Deste ato distante de nós cerca de 3.300 anos, desejamos extrair lições para o
ministro do século 21, tarefa esta do intérprete da Bíblia Sagrada.
O Ato de Consagração
O ritual é um sacrifício de comunhão com a função especial de consagrar. A
cerimônia pode ser dividida em quatro partes:
1.. vv. 1-13
Purificação, Vestidura, Unção dos Consagrandos
2.. vv. 14-17
Oferta pelo pecado dos Sacerdotes
3.. vv. 18-21
Oferta queimada
4.. vv. 22-36
Oferta de paz
Uma análise da liturgia nos mostra em primeiro lugar o oferecimento de uma
oferta pelo pecado, que seria totalmente consumida de acordo com as instruções
do capítulo 4 do mesmo livro; e o oferecimento de dois carneiros. O primeiro
seria oferecido em holocausto, de acordo com o capítulo 1. O segundo, porém tem
uma parte especialíssima na cerimônia, razão porque é chamado de "o carneiro da
consagração", conforme o verso 22 deste capítulo 8.
Lê-se no verso 23 que houve aplicação do seu sangue a algumas partes do corpo
dos consagrandos. Este sangue foi usado para trazer Arão e seus filhos a um
estado sem igual de santidade.
O restante do sangue será jogado ao redor do altar, estabelecendo com este ato
um relacionamento especial entre o altar, símbolo do ministério, e os ordenandos,
agentes desse ministério.
As partes do corpo tocadas pelo sangue são orelha, mão e pé. Esse toque pelo
sangue lava-os e dedica-os simbolicamente ao Senhor. Quer também dizer que o
ministro de Deus ouvirá e obedecerá, e suas mãos e pés servirão ao Senhor.
As lições são extraordinárias:
O OUVIR (v. 23)
O ministro de Deus há de ouvir corretamente. Referimo-nos à conversação
pastoral, chamada por alguns de Clínica Pastoral no gabinete, na visitação ou
informalmente. Não a confunda, porém, com aquilo que jocosamente chamam de "papoterapia".
Como ministro de Deus e da Igreja de Jesus Cristo, você deve conhecer exatamente
o papel que lhe corresponde. Não será um profissional da psicologia, da
psicanálise ou das variadas terapias oferecidas à clientela. E, no entanto, seu
ministério de ouvir é comparável ao do psicoterapeuta, do conselheiro
matrimonial, ou do psicólogo. Muito de seu trabalho tem a ver com
ouvir-e-aconselhar. Entretanto, você não receberá honorários pelo
aconselhamento, nem fará contrato de trabalho para isso. Você é um ministro de
Deus e será procurado não por um paciente ou cliente, mas por uma ovelha sua, ou
um semelhante seu que precisa de ajuda.
Há quem apenas deseja falar, conversar; dê ouvidos, pois para isso sua orelha
foi ungida. Há quem queira injeções de otimismo cristão, de esperança. Há quem
tenha sérios sentimentos de culpa, de rejeição. Há quem precise ser confrontado.
Uma coisa, porém, é certa: você tem autoridade dada por Deus e pela igreja que o
chamou para dar esse conselho, essa exortação ou esse confronto.
O ministro de Deus deve ouvir corretamente. Assim, você precisa ouvir o que está
por trás das palavras. Palavras ditas, palavras não ditas, e palavras em
suspenso. Talvez os lábios digam algo, mas a expressão facial, as mãos, a
expressão corporal digam outra. Você precisa "ouvir" corretamente os sentimentos
de quem está à sua frente.
Na Clínica Pastoral, ouça bastante antes de opinar. Leve a ovelha a falar; viva
a situação do outro. Você é chamado a um ministério de simpatia, de carinho, de
afeição e de amor. Sobretudo quando você é enérgico!
Desde que você começa a ouvir, está fazendo Psicoterapia Pastoral. Isso é
afirmado pelo Dr. Wayne Oates, autor ou co-autor de mais de quarenta livros e
por muitos anos professor de Aconselhamento Pastoral (Pastoral Care), no The
Southern Baptist Theological Seminary em Louisville. Você é visto dentro de um
esquema todo especial: há um significado simbólico em você como ministro de
Deus. O pastor, por exemplo, é um ponto de referência na igreja para o povo de
Deus. Ele simboliza e representa a comunidade cristã, e é agente dessa
comunidade de Cristo, de Deus.
Há muita esperança quando alguém procura o pastor. Por essa razão, é terrível,
medonho mesmo, quando as palavras do pastor são divinas, mas seus hábitos de
vida contradizem essa dimensão... Você representa e simboliza muito mais do que
você mesmo: você representa o Pai, você leva a palavra de Cristo e o faz sob a
direção do Espírito Santo. Quem vai ao seu gabinete espera e deve sair
abençoado. Você vai ouvir confissões, vai ouvir palavras de arrependimento. Mas
não pressione: ajude no processo de crescimento.
O TOCAR (v. 23)
O ministro de Deus é ungido na mão para tocar vidas. Estamos nos referindo,
então, à influência. Você vai tocar muitas vidas e deve fazê-lo com cuidado e
leveza.
Use suas mãos para abençoar a criança, o jovem, o adulto, o idoso. E faça-o com
carinho. Leve-os à consciência do santo, lembrando ao crente em Jesus Cristo que
a rigor, para o povo de Deus, não existem espaços separados, compartimentos
estanques entre o secular e o religioso, o sagrado e o profano, pois a vida
pública, social, civil do crente em Jesus Cristo há de ser normatizada pelo
senso do santo.
Leve-os ao senso da providência, à fé, à gratidão, ao arrependimento, à
comunhão, à vocação. Você há de tocar vidas; há de mexer com as emoções das
pessoas: raiva, medo, alegria. Você vai lidar com almas enfermas. São doenças do
comportamento, mazelas do espírito, enfermidades psicossomáticas.
Você terá um ministério a desempenhar nas crises. Crise é qualquer acontecimento
que ameace o bem-estar de uma pessoa, e interfira na sua rotina de vida. O
nascimento de uma criança, a morte de um parente, o fim de um casamento, o
desemprego, a aposentadoria são crises . Você há de entrar em contato e reduzir
a ansiedade, encorajando a pessoa a agir. Lembre-se de que cada situação de
crise é única, sem igual. Ou como o povo diz, "Cada caso é um caso".
Você há de tocar vidas em diferentes níveis de cuidado pastoral: o Nível da
Amizade; o Nível do Conforto; o Nível da Confissão, o Nível do Ensino e o Nível
do Aconselhamento e Psicoterapia. Devo estas classificações ao Dr. Oates. Há
pessoas aflitas que necessitam de apoio; há aqueles enfrentando a morte que
precisam do poder espiritual que o pastor representa; há pessoas com
enfermidades crônicas; há deficientes físicos; há famílias com filhos com
déficit mental; há os deprimidos e os desapontados com o amor ou outra causa.
Todos estes estão no Nível de Conforto. Há o jovem solteiro, os jovens casados,
o adulto de meia-idade, a viúva, a mãe solteira, o
separado/desquitado/divorciado, o hospitalizado, todos em diferentes níveis do
seu cuidado pastoral.
O ANDAR (v. 23)
O ministro de Deus é ungido no pé para andar santamente. Estamos falando de
ética. Para isso, necessária é a ajuda do Espírito Santo. Se você não tem a
ajuda do Espírito de Deus para crescer na graça e na maturidade, vai ser difícil
entender a Bíblia, impossível aplicá-la às vidas, será um problema conviver com
as ovelhas, e terrível dominar atitudes internas.
Mais do que nunca, é preciso ser imitador de Cristo. Para sê-lo, porém, é
preciso andar no Espírito, andar santamente. E andar santamente exige análise
freqüente de nós mesmos, submissão do eu a Deus, e plenitude do Espírito Santo,
que é o Seu controle em nossas vidas.
Você há de visitar. Irá a muitos lugares e lares. Há dois tipos de visitas: as
regulares e as de emergência. Não visite só nas crises: você precisa visitar o
seu rebanho em tempos de paz. Seja ético, então, quanto ao que ouve, vê e
aconselha.
CONCLUSÃO
O final da narração de Levítico 8 registra a obediência dos consagrandos, Arão e
filhos. Isso nos ensina que consagração é entrega absoluta marcada pela
obediência irrestrita às ordens de Deus.
Nossa oração é que nosso ministério seja pontuado agora, hoje, sempre pela
disciplina, obediência, entrega e consagração total àquele que é o Mestre de
nossas vidas, Senhor do nosso futuro, Salvador de nosso ser.
A Catedral
Uma catedral para a honra e a glória de nosso Senhor Jesus Cristo se
constrói momento a momento à medida que uma mão se estende e toca outra mão com
amor humano, e à medida que um coração responde em amor a outro coração
capacitado pelo Espírito Santo para anelar, escutar, elevar e amar-nos uns aos
outros.
Para que todos, em todo lugar possamos oferecer outros dons que Deus nos tem
dado:
Integridade nas relações,
Alegria e paz na fidelidade,
Fortaleza para fazer por meio da igreja,
Mais do que pedimos ou imaginamos.
- Margaret Shannon
Pr. Walter Santos Baptista