Outros Sermões Isaías

VER O SENHOR
Isaías 6:1-8

Isaías, filho de Amós, segundo os estudiosos, vinha de família muito importante em Israel, possuindo conhecidos importantes no poder, havendo indícios de que o mesmo tinha acesso ao Rei. Tudo indica que sua família possuía muito bons relacionamentos e gozava de boa situação financeira.
Era, então, por assim dizer, uma família que não tinha do que se queixar, fazendo parte da elite daquela sociedade. Desse modo e gozando o profeta de tais ou tantos privilégios, talvez fosse de se esperar que se tratasse de alguém contente com a situação daquela sociedade, alheio aos dramas do mundo em que vivia.

Entretanto, Isaías não tomava a forma desse mundo. Denunciava os pecados do povo, ao mesmo tempo em que ressaltava a Santidade de Deus. Como podemos verificar em Is 1:4, Is 3:11 e Is 5:11, seguia o profeta denunciando desde os pecados individuais até os pecados coletivos do povo – ai dos que bebem, ai do ímpio, ai da nação pecaminosa - não abrindo mão em momento algum, de, opondo-se ao curso daquele mundo, ver e clamar contra a a sua maneira desastrosa e contraditória de viver. Igualmente, em Is 5:18-22 , vemos diversos “ais” pronunciados contra o povo, probantes da constância do profeta no seu sacro ofício de denunciar, pois, a maldade alheia, nos dando a idéia de que não só assim procedia de contínuo, como assim procedeu durante muito tempo – durante quase todo o reinado do rei Uzias.

Entretanto, contrariando alguma expectativa de mudança da nação pecaminosa após tantos clamores, é o próprio Isaías quem experimenta surpreendente mudança. Em Is 6:1-8 o profeta descreve, talvez, a maior de suas visões – a visão do próprio Senhor – o que o leva a olhar para si mesmo, ao invés dos pecados alheios e experimentar assim, na prática, o que é realmente, conhecer ao Senhor. Agora, a sua visão não estava mais sobre o povo, mas ao vislumbrar o Senhor, os “ais” se modificam, não mais sendo pronunciados contra o mundo, mas contra si mesmo, em primeiro lugar ; a partir do momento em que VIU o Deus que antes apenas ouvia (Jo 12:41). Assim, repetindo a lição de Jó 42:5, Isaías agora conhecia o Senhor de ver e não apenas de ouvir falar.

Sem dúvida, isso marca uma nova fase em sua vida, vindo o mesmo a sofrer uma mudança radical. Ora, como profeta, não errava Isaías ao denunciar os pecados do povo e muito menos ao exaltar a santidade de Deus, mas agora o fazia com propriedade e como quem tinha toda autoridade. (Jo 12:39-41).

Podemos ver, então, que após ver o Senhor, Isaías teve uma visão de si mesmo, dizendo “ai de mim”, expressão de uma consciência de pecado, que por sua vez gera a confissão : “tenho lábios impuros e habito...”. Essa confissão, por seu turno, gera a cura que vem através da tenaz.

Aliás, o toque do instrumento em brasa em sua boca, indica relacionamento de intimidade – adoração, que pode ser entendida como “provar”, “experimentar”, “saber o sabor” – que tem o Senhor. Era Deus convidando o seu profeta para sua intimidade.

Em Is 6:8 – “Depois disto...”, ou seja, depois que Isaías viu ao Senhor, ouviu a sua voz . Ouvir indica serviço, então, o envio de Isaías, ou seja, o servir de Isaías foi posterior à sua experiência de intimidade com Deus, nos trazendo a lição de que o nosso serviço deve derivar de nosso relacionamento com o Pai. Antes de ouvir, devemos ver o Senhor, do contrário estaremos fazendo ou realizando coisas só pelo serviço ou por mera obrigação. Precisamos ver o Senhor e reconhecê-lo todos os dias, o que certamente resultará “em serviço de melhor qualidade”. Enfim, o servir deve resultar de relacionamento (de filho com o pai), porque todo filho é servo, mas nem todo servo é filho.

O serviço, pois, sucede a adoração (Mt 4:10). Esse relacionamento com Deus produzirá o “combustível” necessário para o serviço, nunca resultando cansaço ou frustração.

Em Gên 32:22-32, (vide verso 30) vemos Jacó com experiência semelhante, experiência que lhe rendera uma marca “na coxa” (no coração) e em Ju 6:22 Gideão vendo o Anjo do Senhor face a face, emite a mesma expressão de Isaías ( “ai de mim”) numa franca descoberta de si mesmo ou do próprio caráter frágil de homem comum.

Ora, quando vemos Deus, temos que mudar! É impossível termos um encontro nesse nível e continuarmos os mesmos. Há pessoas que dizem que viram Anjos e coisas semelhantes, sem, contudo, experimentarem mudança de caráter, mudança de conduta. Devemos buscar ter esse encontro verdadeiro com Deus e uma vez isso tendo acontecido, certamente experimentaremos verdadeira mudança, uma vez que é impossível, repita-se, ver o Senhor (ou o seu Anjo) e continuarmos os mesmos.

Jacemã Dórea, Pr.