RAIO X DE UMA IGREJA PROFÉTICA
Habacuque 1
No pequeno texto profético de Habacuque – considerado por nós um dos profetas
menores, na realidade um grande profeta com uma mensagem sucinta - existem
alguns versículos que costumamos usar quando queremos falar das grandes obras de
Deus. Sem perceber usamos esses versículos tirando-os de seu real contexto, o
que não diminui em nada a grandeza da promessa de Deus!
Os versículos são:
"...porque realizo, em vossos dias, obra tal, que vós crereis, quando vos for
contada" (1.5).
"Mas o justo viverá pela fé" (2.4).
"Pois a terra se encherá do conhecimento da glória do Senhor, como as águas
cobrem o mar" (2.14).
"O Senhor, porém, está no seu santo templo; cale-se diante dele toda a terra"
(2.20).
E o grande texto que expressa o clamor de todos nós:
"Aviva a tua obra, ó Senhor, no decorrer dos anos, e, no decurso dos anos,
faze-a conhecida" (3.2).
Na realidade, essas expressões do profeta surgiram no meio de notícias
aterradoras. O profeta quando ouve de Deus as terríveis notícias de que os
caldeus invadirão sua cidade e destruirão sua nação, se angustia e, apela para o
caráter misericordioso de Deus. Depois, resolve se recolher à oração, vigília e
meditação e esperar em Deus. E ali em sua torre de vigília ouve Deus falar – uma
resposta que não dá muita esperança ao profeta!
Deus não acena com a libertação do povo das mãos dos caldeus. A nação teria que
passar por esse tempo de tribulação. Na atitude do profeta diante da resposta
negativa que recebe de Deus, encontramos a mensagem que pode fazer de sua
congregação uma igreja profética.
Habacuque se desespera diante do quadro social que vive a nação. A violência
tomou conta de todos os segmentos da sociedade. O governo federal sente-se
impotente, os moradores das cidades não têm mais sossego. A cada dia enormes
cercas com fios elétricos são levantadas, empresas de segurança acionadas,
alarmes, vídeos e guaritas com vigilantes a cada quarteirão tentam minimizar a
invasão de nossas cidades por gente má e arruaceira. O sistema prisional e penal
está falido, e a corrupção e violência institucional corroem os mais altos
escalões do governo. Assaltos com mortes e fuzilamentos sumários deixam a
sociedade acuada diante do medo que lhe é imposta.
Habacuque viveu naqueles dias o que vive hoje a igreja brasileira. Ele clamou:
"Até quando, Senhor, clamarei eu, e tu não me escutarás? Gritar-te-ei:
Violência! E não salvarás? Por que me mostras a iniquidade e me fazes ver a
opressão?" (Hc 1.2-3).
Primeiro. O profeta deixa claro que a verdadeira igreja profética é sensível a
toda prática do mal. A igreja deve demonstrar sua preocupação a Deus diante de
coisas que acontecem na sociedade. Para muitos a violência já é coisa normal,
mas o profeta não se submete à violência: expõe diante de Deus o seu clamor.
A igreja tem de ser sensível ao maligno. Não consegue se calar ao ver o povo
sofrer sob a mão do diabo. Ela entende que a violência urbana, a opressão
espiritual, a pobreza, as enfermidades e o sistema iníquo de governo que oprime
cada vez mais o povo, são conseqüências da atividade satânica que mata, rouba e
destrói o ser humano. Ela reconhece sua fragilidade diante de tanta malignidade,
mas se firma cada vez mais no poder de Deus!
Além de ser sensível ao mal ela é também sensível às necessidades humanas, pois
encarna o coração misericordioso do próprio Deus. Habacuque argumenta: "Deus,
não faz parte de teu caráter a insensibilidade diante da opressão. No entanto,
por que te calas, e deixas a violência aumentar ?" (1.13 paráfrase). É o tipo de
argumentação permitido. O profeta não se conforma com o silêncio de Deus e
pergunta: "Até quando?". Uma coisa é discutir com Deus, outra é empenhar a Deus
com sua própria palavra!
Se a igreja não puder argumentar com Deus a respeito da maldade que assola a
terra com quem irá conversar? A verdadeira igreja profética não discute seus
temas e assuntos em foros humanos, mas com Deus! Ela já está bem ciente das
necessidades espirituais e sociais ao seu redor. O problema é quando a igreja se
torna insensível. Há uma diferença entre ser insensível e esperar pela ação de
Deus!
Diante de sua argumentação, o profeta ouve Deus lhe responder: "Habacuque, a
coisa vai piorar!" E aqui o versículo que usamos para falar de tempos de
prosperidade, Deus usa para falar de um tempo mais difícil para a nação. Ele
ouve de Deus a sentença: "Porque realizo em vossos dias, obra tal, que vós não
crereis, quando vos for contada".
Condoída e sensível ao Mal que aflige seus cidadãos, e diante da resposta
negativa de Deus, o profeta não se deixa dominar pelo temor de piores dias, e
mostra o que uma igreja profética deve fazer quando as coisas tendem a piorar. O
profeta decide orar. Para isso escolhe a torre onde ficavam os sentinelas da
cidade. Ali ele quer vigiar a aproximação do inimigo e esperar a resposta de
Deus! E quando se propõe ouvir que resposta Deus tem à sua queixa, Deus lhe fala
em alto e bom som: "Escreve a visão com letras grandes e visíveis. Coloca em
painéis à beira da estrada para que, até o que passa a 120 k/h leia" (Paráfrase
do autor).
Isso nos leva a uma segunda verdade. A Igreja profética vive acima da
mediocridade, acima do trivial; vive ouvindo de Deus! Ao invés de buscar suas
respostas no mundo, a igreja precisa esperar mais em Deus. Ele tem em suas mãos
o controle do Universo. Nas suas mãos está o controle da ciência, das armas de
guerra, da mente dos poderosos! A Igreja sai do terreno comum quando ouve de
Deus! A verdadeira igreja tem o DNA de Deus em seu corpo!
Não é alienação. É envolvimento social diretamente com Deus. A verdadeira igreja
profética está sempre disposta a ouvir de Deus! Não dá o primeiro passo sem que
Deus dê as ordens! Vive longe dos foros humanos porque tem acesso ao trono, ao
comando central de Deus! Na torre da vigília e da oração Deus se manifesta. Foi
assim com os 120 no cenáculo que estavam orando quando o Espírito Santo desceu;
quando foi perseguida, Deus falou estremecendo o lugar onde oravam; quando os
apóstolos eram presos, lá estava a igreja na torre de vigília esperando em Deus!
É o próprio Deus que tira a igreja de seu lugar de oração e a envia às ruas.
"Vai para as ruas e anuncia em letras bem grandes...". A verdadeira
espiritualidade do povo de Deus reside nessa tensão entre estar diante de Deus
sem deixar de estar diante do povo! Ou vice-versa! Vivemos sobre o tênue fio que
liga o ser e o fazer; o místico e o pragmático, a fé a razão!
E é dentro desse contexto que Deus afirma que o justo viverá pela sua fé.
"Habacuque, as coisas irão piorar. Você acha que está ruim? Vai ficar mais ruim
ainda! Mas o meu justo não depende do bom e do mal para viver; não depende se as
coisas vão bem ou ruim. O meu justo, Habacuque, vive pela sua fé"! É devido a
essa grandeza divina que "a terra se encherá do conhecimento da glória do
Senhor, como as águas cobrem o mar" (2.14). O conhecimento de Deus nem sempre
vem pela prosperidade, ou por tempos bons, mas também nas coisas ruins! Essa
declaração de Deus da fé e do conhecimento, catapultam a igreja a um terceiro
aspecto.
A Igreja profética vive uma oitava acima das demais igrejas. Enxerga as coisas
pelo ângulo de Deus! Não nos impressionamos quando alguém ao nosso lado canta
conosco a mesma melodia só que uma oitava acima? Se tentarmos, não vamos
conseguir! A igreja profética também vive uma oitava acima das demais igrejas!
Apesar do quadro triste que Deus abre diante do profeta o que ele vê no capítulo
3? Dos versículos 3 ao 16 ele vê Deus em ação! "Ouvi-o e o meu íntimo se
comoveu" (3.16). Será que vemos o mundo pela ótica de Deus ou estamos nos
deixando contaminar pela ótica do mundo? O mundo vai melhorar ou piorar? Como
Deus vê? Ele diz: Depois que vi tudo isso, o meu íntimo ficou tocado!
Habacuque viu a destruição e se comoveu! Não é assim conosco: Se Deus dissesse
que iria destruir o Carnaval, matar o povo, etc. como se comportaria o nosso
coração? Vibraríamos de alegria e prazer ou nos comportaríamos como Moisés? E
como se comportou Jesus diante do pecado e dos problemas das pessoas?
Quando ela vive na dimensão do Espírito Santo sai da dimensão humana, da
mediocridade, do comum. Por isso o grito do profeta: "Aviva a tua obra, ó
Senhor, no decorrer dos anos..." (3.2). Da torre de vigia o profeta viu Deus
agindo. Eis aí a razão de seu clamor! A Igreja verdadeiramente profética passa a
freqüentar o Trono, lugar das decisões. Como a Igreja de Atos dos Apóstolos. Ali
o Espírito Santo governava: falando, avisando, enviando, enchendo de poder,
capacitando, guiando, impedindo, estabelecendo, levantando ministérios, etc.
Quarto. Se a igreja é profética e vive uma oitava acima das demais, ela passa a
ser também uma igreja luminosa e explosiva. Onde os demais vêem derrotas, ela vê
a vitória! Não é pensamento positivo! O Pensamento positivo ignora as
dificuldades. A Igreja vê dificuldades, mas sabe que tem de vencer!
A igreja profética vê a Deus e isso faz dela uma igreja iluminada e explosiva! O
importante para o profeta é que ele via a Deus se aproximando! No meio do horror
que vê, ele recebe um raio de luz e exclama: "Aviva a tua obra, ó Senhor!" Uma
igreja que não olha para as circunstâncias! O profeta Habacuque deixa a dica.
Ele sobe para a torre para vigiar e ouvir de Deus e logo tem de descer, porque é
iluminado com a resposta de Deus. Explode num cântico de louvor e adoração que é
o capítulo 3.
Ela é explosiva quando sai de seu lugar de oração e parte para a ação. Jesus não
queria que os discípulos ficassem no Monte das Oliveiras e montassem acampamento
esperando sua vinda: "Vão! Preguem por todo o mundo", disse. E quando os
apóstolos decidiram ficar na torre orando e estudando – depois dos incidentes de
Atos 6 – ele levanta um diácono iluminado e explosivo, Estêvão, que decide
confrontar novamente as autoridades eclesiásticas de seu país. Parece que Deus
estava dizendo: "Tudo bem. Já que vocês só querem estudar e orar, vou usar os
diáconos. Vou levantar outras pessoas". E levanta a Filipe, e depois a Saulo de
Tarso que dá novo vigor à igreja!
A igreja profética não fica apenas em vigílias de oração, tão importantes para
ouvir de Deus. Quando ouve de Deus, obedece e parte para a ação!
A verdadeira igreja profética vê Deus em ação! Deus mostra situações difíceis ao
profeta, mas ele não vê derrotas: Vê ação! "Deus vem de Temã". O que aconteceu
em Temã? Foi lá que se manifestou ao povo de Israel (Dt 33.2; Sl 68.7).
O profeta ouve o barulho do mundo espiritual (3.16). "Ouvi-o e meu íntimo se
comoveu". A igreja ouve o barulho de Deus chegando! Elias ouvi-o em forma de
abundante chuva. Eliseu viu os carros de fogo cercando sua cidade; Davi ouviu o
ruído da cavalaria de Deus sobre as amoreiras. Temos visto a ação sobrenatural
de Deus? (Anjos cantando, vento soprando, etc.)? O que temos ouvido? Só
conseguimos ouvir e ver pela fresta da revelação de Deus se estivermos na Torre
da oração!
Precisamos ter aquele ouvido de João Milton, de O Paraíso Perdido que conseguia
ver o que outros não viam! Olhos e ouvidos de poetas que vêem e escutam o que se
nos passa desapercebido!
Abraão via a cidade que tem fundamentos, a Igreja, que ainda se manifestará no
fim dos tempos (Hb 11.10). Isaque viu as coisas que estavam para vir quando
abençoou Esaú e Jacó (Hb 11.20). Jacó via o futuro do mundo quando, apoiado em
seu bordão, adorou a Deus. José via o povo entrando em Canaã e deu ordens a
respeito de seus ossos! ((Hb 11.22). Moisés decidiu pagar o preço porque via o
galardão – ainda para vir! (Hb 11.26). Jesus suportou a morte de Cruz porque viu
a ressurreição de antemão! (Hb 12.2). E nós o que vemos e ouvimos? Estamos
trabalhando e construindo sobre o que Deus nos mostra ou sobre planos humanos?
E isso nos leva ao último ponto: A Igreja profética tem uma visão
multidimensional da história da humanidade, de seus acontecimentos e vê que
nenhum movimento no programa dos homens é dado sem a permissão de Deus! Ela não
enxerga só o que está à sua frente; mas tem uma visão geral do mover de Deus ao
longo de gerações! Não pode esquecer dos feitos do passado, como fez o povo de
Israel. (Jz 2.10). Tem que viver o presente, ciente de sua história no passado!
Por isso a igreja pode transformar as más notícias num cântico de louvor a Deus!
Como Habacuque que no final de seu cântico, diz: "Ao mestre de canto. Para
instrumentos de cordas". Onde todos viam derrotas, Habacuque, uma figura da
igreja profética via a mão de Deus! Ele passou a dizer: "Mesmo não florescendo a
figueira, e não havendo uvas nas videiras, mesmo falhando a safra de azeitonas,
não havendo produção de alimentos nas lavouras, nem ovelhas no curral, nem bois
nos estábulos, ainda assim eu exultarei no Senhor e me alegrarei no Deus da
minha salvação" (Hc 3.16-18 NVI). Por que Habacuque demonstra tanta confiança
apesar das más notícias? Porque o profeta tinha ciência da história de seu povo
e da ação de Deus ao longo de milhares de anos!
A igreja profética por viver acima do trivial, por viver uma oitava acima das
demais e por ter uma visão multidimensional da obra de Deus - passado, presente
e futuro – não depende de cultos de avivamento para sobreviver; nem de farturas
de alimentos para crer. Muitos são os que se deleitam em cultos de avivamento e
de poder, mas depois desistem diante das dificuldades. A verdadeira igreja
profética, tira das dificuldades, vitória! Está firme em Deus!
Precisamos estar no Monte da Transfiguração sem esquecer que existe coisas a
fazer lá embaixo! (Mt 17).
A igreja que vive nessa dimensão entoa um novo cântico, mesmo diante das
dificuldades. Lutero, diante do terror e das ameaças do Papa, escreveu o
belíssimo Castelo Forte: "Se nos quiserem devorar, demônios não contados, não
nos podiam assustar, nem somos derrotados; o grande acusador, dos servos do
Senhor já condenado está, vencido cairá; por uma só palavra!"
Joseph Scriven, mesmo desgastado pelos fracassos da vida, depois de ver o sonho
de ser militar frustrado, e de duas noivas – em ocasiões diferentes - morrerem
às vésperas do casamento dele, ao receber a última triste notícia de que sua mãe
estava à beira da morte na Irlanda e ele no Canadá, sem ter meios de
acompanhá-la na hora da morte, à beira de um rio, morreu afogado num palmo de
água, ajoelhado diante de Deus. Ele nos legou o famoso cântico: "Em Jesus amigo
temos; mais chegado que um irmão!"
É diante das piores situações que o homem tem vislumbre da ação e do poder de
Deus! A Harpa Cristã diz: "Os mais belos hinos e poesias foram escritos em
tribulação". Ao viver nessa dimensão, a igreja pode dizer como Davi no Salmo
108.1-5! "Firme está meu coração, ó Deus!"
Concluindo, devo dizer à Igreja brasileira que não se iluda com as promessas de
prosperidade, nem se acomode diante do conforto e da liberdade que tem. Se a
igreja se acomodar e não levantar a voz a favor dos pobres e necessitados, se
não se levantar contra o Inimigo de Deus e se não denunciar as obras das trevas
de nossas autoridades governamentais – e também de certos pastores – viverá na
mediocridade e no trivial. Mas se subir para seu lugar de vigília e ouvir a voz
de Deus, por certo se tornará uma igreja iluminada e explosiva, vivendo uma
oitava acima das demais!
Que Deus nos abençoe!
João A. de Souza Filho