O GNOSTICISMO
Colossenses 2.8
"Cuidado que ninguém vos venha a enredar com sua filosofia e vãs sutilezas,
conforme a tradição dos homens, conforme os rudimentos do mundo e não segundo
Cristo". (Cl 2.8)
O Gnosticismo era uma heresia presente na Igreja primitiva, vinha trazendo uma
doutrina diferente daquela deixada por Cristo, e o seu desenvolvimento na
história foi marcante e real. Contudo, ela foi combatida pelos Pais Apostólicos,
pelos apologistas. E hoje? Será que o "Gnosticismo" com sua filosofia e
influência, está presente em nosso meio, nos púlpitos de nossas igrejas, como
esteve na igreja primitiva e a história?
Por isso, nos será importante conhecer o gnosticismo e sua influência na
história para que possamos confiadamente analisar a situação da Igreja atual e
sua tendência ao gnosticismo, isto para que "ninguém nos engane com raciocínios
falazes", pois como "recebemos Cristo Jesus, o Senhor, assim andemos nele, nele
radicados, e edificados, e confirmados na fé..."
O GNOSTICISMO NA HISTÓRIA
Antes da primeira metade do Século XX , apologistas, tais como Irineu,
Tertuliano, Hipólito e Epifânio eram as fontes básicas de informações a respeito
dos gnósticos. Segundo as denúncias, os gnósticos desviavam os cristãos mediante
as manipulações das palavras e a torção dos significados das Escrituras. Usavam
os textos bíblicos visando seus próprios propósitos, principalmente as histórias
em Gênesis, o Evangelho segundo João e as epístolas de Paulo, aliás, a
descoberta de uma biblioteca gnóstica em Nag Hammadi, no Egito, tem confirmado
isto. São treze códices antigos, incluindo cinquenta e dois tratados, dos quais
seis representam duplicações. Um grande número deles claramente representa uma
perspectiva gnóstica cristã, sendo que os três mais conhecidos são os evangelhos
valentinianos: O Evangelho de Tomé (composto de uma série de breves palavras de
Jesus), o Evangelho de Filipe (uma coletânea de expressões sobre a deidade e a
unidade, que relembra a linguagem do quarto evangelho mas especificamente
orientado em direção à mitologia gnóstica e possivelmente ligado com o Evangelho
da Verdade escrito por Valentino, mencionado em Irineu). Há, também, entre os
tratados gnósticos cristãos apócrifos de Tiago, os Atos e Pedro e dos Doze
Apóstolos, o Tratado da Ressurreição, a longa coletânea conhecida como o Tratado
Tripartite, e três edições do apócrifo de João (a história da criação, que
envolve uma reinterpretação dos relatos de Gênesis).
Os apologistas consideravam o gnosticismo como produto da combinação entre
filosofia grega e o cristianismo, é a helenização aguda do cristianismo (Adolf
Harnack). O gnosticismo combinava elementos da filosofia grega, das religiões
pagãs misteriosas, do judaísmo e do cristianismo, contudo, de forma diferente, o
gnosticismo já existia no mundo pré-cristão, como aliado das religiões místicas
orientais e atualmente, o gnosticismo tem sido visto como uma forma de
misticismo, com influências babilônicas, egípcias, iranianas e hindus, além de
sua forma de filosofia mística. No gnosticismo se combinavam a orientalização da
civilização greco-romano e a helenização do Oriente. Provavelmente, a doutrina
do gnosticismo foi influenciada, em parte, pelo mitraísmo, uma das religiões
misteriosas da Pérsia. Mitra era um deus-herói, o qual, enquanto esteve na
terra, dedicou-se ao serviço da humanidade. Após uma ceia que celebrava o
sucesso de seus labores remidores, ele ascendeu aos céus; dali ajuda seus
seguidores na terra no conflito deles contra as forças do mal. Os iniciados
nessa adoração passam por sete estágios de desenvolvimento, o que prefigurava a
passagem final da alma pelos sete céus. Mediante cerimônias místicas é que seus
seguidores passariam por vários graus, e essas cerimônias incluíam abluções,
refeições sagradas, ritos sacramentais, etc. Tal religião admitia somente varões
em suas fileiras, pelo que somente os homens poderiam ser remidos.
E no que se refere ao cristianismo, o gnosticismo consistia, essencialmente, na
tentativa de fundir as revelações dadas por meio de Cristo e seus apóstolos com
os padrões de pensamento já existentes, o cristianismo tornar-se-ia apenas mais
outro culto misterioso greco-romano.
GNOSTICISMO - TERMINOLOGIA E DOUTRINA
A palavra gnosticismo vem do grego "gnoskein" , "saber" e que segundo R.N.
Champlin, refere-se a um movimento dedicado à obtenção de um conhecimento
genuíno maior, por meio do qual, se cria, poderia ser obtida a salvação, ou
seja, a gnose se propõe fazer o homem tomar consciência por si mesmo de que ele
é deus, para que este conhecimento o leve à salvação.
De acordo com Samuel Vieira, o termo "gnose" ou conhecimento até a época de
Platão, nunca foi usada senão no sentido de "conhecimento", a verdadeira
realidade é discernida não pelos sentidos, mas pelo intelecto. Com o
cristianismo o termo gnose passou a ser empregado de forma distinta, sendo
designativo de um sistema filosófico ou uma certa forma de filosofia religiosa
influenciada pelas idéias e linguagens cristãs.
O termo "gnósticos" foi originalmente usado pelos próprios grupos que buscavam a
gnose, para eles, a questão fundamental é a "perfeição" (teleiõsis), obtida pela
gnose, pelo conhecimento.
O Gnosticismo é uma descrição geral de uma série de escolas heréticas que
ameaçaram a igreja, um movimento de ensinos esotéricos baseados em mitos que
descreviam a criação do mundo por um demiurgo, afirmando que a salvação é
encontrada através da gnose. Expliquemos melhor:
Segundo Champlin, o gnosticismo pintava a realidade dividida em dois dramas
distintos, um espiritual e cósmico e outro histórico e terreno; no mesmo está
retratado o ciclo de criação, da existência , dos sofrimentos, da morte e da
ressurreição. Nos mais elevados céus estaria um ser supremo, intocável e
inabordável. Um ser deísta "transcendental", o qual mediante poder criador,
delegaria poder a seres inferiores, uma sucessão quase interminável de sombrios
"aeons" (as emanações angelicais), os quais entrariam em contato com a matéria,
ao mesmo tempo que ele não se deixava tocar na matéria, visto que esta seria o
princípio mesmo do mal, o que só poderia contaminá-lo. Também haveria um
demiurgo - que teria criado o mundo, o qual entraria em contato com o mesmo.
Antes de tudo, haveria trinta emanações superiores, e estariam bem próximas ao
fogo central. Cada uma dessas emanações originou a emanação imediatamente
inferior, pelo que haveria uma espécie de resplendor divino cada vez menor, com
poderes cada vez mais limitados. Bem longe da chama divina, eis que chega uma
emanação, a mais distante das trinta, que chegaria na linha separatória entre o
que é celeste e o que é terreno. Visto estar ela tão distanciada de Deus, quando
criou a terra, fez um mau trabalho, o que explicaria a confusão e os sofrimentos
que há neste mundo como o problema do mal. Essa última das trinta emanações
seria o demiurgo, sendo identificado com o Deus do Antigo Testamento, o Deus dos
judeus - também haveria a pleroma ou manifestação total de Deus, nas dimensões
celestiais, que seriam suas emanações, inferiores acompanhantes, de natureza
terrena. O Deus Altíssimo não seria o responsável pela criação deste mundo e seu
caos, pois este seria o domínio do "demiurgo".
O objetivo da vida seria então, a libertação da alma, que é a parte imaterial do
homem, deste mundo material, porque a matéria, incluindo nosso corpo físico,
seria inerentemente má, totalmente incapaz de redenção. Assim sendo, o alvo
seria a separação entre o espírito e a matéria, ficando de lado a imperfeição e
o mal, com a volta às dimensões do espírito, da luz e da santidade. Ora, em
vista da matéria não poder ser redimida, não importa o que se faz com o corpo. A
alma pode ser cultivada ao mesmo tempo em que o corpo é entregue a punição com
ascetismo ou à licenciosidade e prazeres carnais, neste caso, ascetismo ou
licenciosidade seriam meios de cooperação para a libertação da alma do meio
ambiente físico.
Portanto, o propósito do gnosticismo seria o aniquilamento da raiz verdadeira de
todo o mal, que é a matéria , para a elevação da alma, através do conhecimento e
sabedoria esotéricos, reveladas aos gnósticos através de certos ritos,
sacramentos, práticas mágicas, etc.
O gnosticismo prometia um conhecimento supremo por meio de práticas esotéricas
ocultistas; os iniciados seriam conhecedores "do bem e do mal", experimentando o
perfeito aeon e o soberano mônada que moram acima e além do universo; estas
emanações sucessivas seriam conhecidas pela aletheia (verdade), logos (palavra)
e zoe (vida), o nous (pensamento) e pela iniciação. Os iniciados teriam um
entendimento completo e verdadeiro do universo, seriam os iluminados que teriam
acesso aos segredos do Espírito, libertando-se do mundo mal da matéria. A gnose
era, assim um conhecimento sublime.
Além disso, o gnosticismo falava, de acordo com Ricardo Gondim, do homem como um
composto de corpo, alma e espírito. O corpo e a alma, produtos de poderes
cósmicos, são partes do mundo e estão sujeitos às forças cegas do destino. O
espírito, ou o pneuma, é a porção da substância divina que se liberta através do
conhecimento. Como espírito liberta, alma adquire capacidade para superar o
corpo (que é mau).
Segundo as idéias gnósticas , os homens pertenceriam a três categorias: os
hílicos, os psíquicos e os pneumáticos. Os hílicos estariam presos à matéria,
estando sempre sujeitos ao mal, às influências do reino das trevas, pelo que
seriam totalmente incapazes de receber a redenção. Esse grupo incluiria a vasta
maioria dos homens, sendo impossível para eles qualquer raio de esperança. Os
psíquicos estariam sujeitos a uma redenção inferior, por meio da fé. Nessa
classe eles numeravam os profetas do AT, bem como homens bons de toda sorte;
mas, apesar da redenção dos tais ser digna, nunca faria os homens subirem aos
paroxismos da glória. Os pneumáticos, sim, seriam os homens verdadeiramente
espirituais, reabsorvidos no ser divino, perdendo totalmente a individualidade,
conseguindo a redenção máxima através da "gnosis". Somente um exíguo número de
iniciados poderia receber esse conhecimento remidor. Para eles o conhecimento
seria manifestação superior a fé.
Além do mais, os gnósticos acreditavam que Cristo era mais um dentre os muitos "aeons"
ou emanações angelicais. Seria um dentre muitos salvadores ou pequenos deuses,
mas em sentido algum seria divino como Deus é divino, apenas um "aeon" que
participava, em parte, da essência e dos atributos divinos. O fato de que os "aeons"
podiam ter contato com a matéria, o princípio mesmo do mal, mostrava que Cristo
não seria um "aeon" muito elevado. Nenhum "aeon" , muito menos o Verbo Divino (a
primeira emanação) poderia encarnar-se , porquanto isso o envolveria na
corrupção do mal. Portanto, o mundo seria um caos, porque o seu próprio criador
teria problemas.
Contudo, os gnósticos eram "docéticos" (dokeo ' aparecer). Acreditavam eles que
o "aeon" chamado de Espírito-Cristo, na realidade não se encarnava. Isso seria
impossível, porque tal coisa serviria somente para corrompê-lo. Antes, seu
suposto corpo humano seria um "fantasma", e tudo quanto fez aqui: encarnação,
sofrimento, morte na cruz, foi um papel teatral. Ou então, conforme pensavam
muitos gnósticos, o Espírito-Cristo teria vindo possuir o corpo físico de Jesus
de Nazaré, quando de seu batismo tendo-o abandonado por ocasião de sua morte,
pelo que a morte de Jesus não teria nenhum valor como expiação. Cristo, na
qualidade de "aeon" poderia ser adorado como outros "aeons" o poderiam.
TIPOS DE GNOSTICISMOS
Gnosticismo tipo Iraniano:
Desenvolveu-se na Mesopotâmia, reflete um dualismo horizontal, associado com
o culto zoroastriano.
Na luta decisiva entre as divindades primordiais Luz e Trevas, a Luz transcende
a si mesma e brilha além de sua própria esfera, partículas de luz eram sujeitas
à captura pelo seu inimigo invejoso, a escuridão. Portanto, a fim de lançar um
contra-ataque e tomar de volta as suas partículas perdidas, a luz "emana" uma
série de divindades subordinadas. Na sua própria defesa, a escuridão também põe
em andamento uma geração comparável de subdivindades e toma as medidas para
sepultar as partículas de luz num mundo criado. O objetivo de luta é conquistar
seres humanos que contém partículas de luz e efetuar sua libertação da prisão
deste mundo, de modo que possam reentrar na esfera da luz celestial.
Gnosticismo tipo Sírio:
Surgiu na área da Síria, Palestina e Egito.
O deus bom (a profundeza ulterior) com seu consorte (o silêncio) inicia o
processo de nascimentos (ou emanações) uma série de deidades em pares (casais).
A última das deidades subordinadas (geralmente chamada Sofia, sabedoria), está
descontente com seu consorte e deseja, pelo contrário, um relacionamento com a
profundeza ulterior. Este desejo é inaceitável na deidade e, sendo extraído da
Sofia e excluído das regiões celestiais (pleroma). Embora Sofia seja liberta,
desta forma, da sua concupiscência, a deidade perdeu parte de sua natureza
divina. O alvo, portanto, é a recuperação da luz decaída.
Mas o desejo excluído (ou Sofia inferior) não tem consciência da sua natureza
caída, e, dependendo dos vários relatos diferentes, ela ou seu filho, o Criador,
começa um processo "demiúrgico" ou de geração, que parcialmente reflete o
processo de "emanação" no pleroma, que finalmente resulta na criação do mundo. A
deidade superior (pleroma) mediante seu mensageiro divino (frequentemente
chamado Cristo ou o Espírito Santo) consegue , através de um ardil, que o
Criador-demiurgo sopre no homem o fôlego da vida, e assim as partículas de luz
são passadas para um homem-luz. Os gnósticos são aqueles colocados num mundo
onde pessoas espirituais que possuem as partículas de luz só precisam ser
despertadas para herdarem os seus destinos.
Gnosticismo de tipo Egípcio:
Basílides (c.130) ampliou consideravelmente os pontos de vista de Saturnino
e ensinou que a Mente foi o primogênito do Pai Ingênito. A Razão foi gerada pela
Mente e, por sua vez, gerou a Prudência , e esta gerou a Sabedoria e o Poder. Da
sabedoria e do Poder nasceram a Virtude, os Príncipes e os Anjos, que são
chamados também de "os Primeiros". Estes fizeram o primeiro Céu , do qual
derivaram outros céus que também geraram outros céus... (perfazendo um total de
365 céus).
Os anos que presidem sobre o céu inferior, que é visto por nós, ordenariam todas
as coisas que há no mundo, dividindo entre si a Terra e as nações da Terra. Seu
chefe é aquele que tem sido crido como o Deus dos judeus. Ele pretendeu sujeitar
os demais povos aos judeus, provocando a resistência dos outros príncipes que se
coligaram contra ele... então o Pai Igênito Inominado... enviou sua Mente
primogênita (chamado Cristo) para libertar os que nele cressem dos poderes que
fizeram o mundo. Ele apareceu assim entre as nações dos príncipes, em forma de
homem, e realizou atos de poder. Ele, porém, não sofreu, mas um certo Simão de
Cirene foi movido a levar a cruz por ele. Simão foi equivocadamente crucificado,
tendo sido transfigurado por Ele, de tal sorte que o populacho o tomou por
Jesus. Jesus, entretanto, transmutou-se na forma de Simão, presenciando a agonia
de seu sósia e dele escarnecendo. Quem, portanto, reconhecer e reverenciar o
crucificado ainda não deixou de ser escravo e sujeito ao domínio dos que fizeram
nossos corpos. Quem, ao contrário, o negar fica livre e reconhece disposição do
Pai Ingênito.
Gnosticismo de tipo Judaizante:
O mundo foi feito não pelo Deus Supremo, mas por alguma Virtude muito
afastada e separada do príncipe que está acima de todas as coisas e cuja
soberania absoluta não é reconhecida por tal virtude. Acrescenta que Jesus não
nasceu de uma virgem, mas que foi filho de José e Maria, à maneia comum, embora
seja superior aos demais em justiça, prudência e sabedoria. Após o batismo de
Jesus, Cristo desceu sobre ele em forma de pomba, procedendo do Príncipe que
está sobre todas as coisas. Depois disso, Jesus revelou o Pai Ingênito,
realizando atos de poder. No fim, porém, Cristo retirou-se, deixando Jesus
abandonado: o homem Jesus sofreu sozinho e ressuscitou; porém, Cristo permaneceu
impossível como convinha à natureza espiritual.
Gnosticismo de tipo Pôntico:
Marcion, do Ponto, blasfemou imprudentemente contra Aquele que a lei e os
profetas chamam Deus e que ele chama de artífice de maldades, amigo de guerras,
volúvel nos juízos, incoerente consigo mesmo. Marcion persuadia seus discípulos
de que merecia mais crédito do que os apóstolos que legaram o Evangelho, apesar
de lhes transmitir não um Evangelho, mas apenas fragmentos de um Evangelho. Do
mesmo modo mutilou as Epístolas de Paulo, eliminando delas tudo que deveria ser
o Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, bem como o ensino dos profetas anunciando o
advento do Senhor.
O GNOSTICISMO CONTEMPORÂNEO
Há na Igreja hoje, assim como em várias seitas (Ex.: Ciência Cristã, Ciência
Divina, Teosofia, Igreja da Unificação, Escola da Unidade do Cristianismo,
etc.), uma presença daquilo que ficamos conhecendo como a "heresia gnóstica", ou
pelo menos, traços de algumas das suas características, como o forte/falso
misticismo , o dualismo e um certo tipo de ascetismo, que afetou a Igreja do
primeiro século e tem alcançado a igreja atual.
Poderemos detectar um certo gnosticismo em nossas Igrejas hoje, especialmente se
tomarmos por paralelo a Igreja aos Colossenses, e a carta que o apóstolo Paulo
escreve para os crentes de Colossos combatendo o gnosticismo e os seus ensinos
que tinham base nas religiões misteriosas orientais.
Na igreja de Colossos, grande importância era dada aos "aeons"(seres angelicais/
emanações de Deus), entre eles Cristo, que era apenas um dos mediadores e
salvadores, um pequeno deus, mais um dentre muitos "aeons", com um corpo
aparente, que não poderia sofrer e nem morrer. Sua morte não teve valor
expiatório, pois o "aeon" que tomara conta do corpo de Jesus, o homem, quando de
seu batismo, abandonou-o por ocasião de sua crucificação. É o "dualismo" que
existe entre a "matéria"(corpo) e o "Espírito", pois a carne é má e nenhum "aeon"
santo poderia, na realidade, tomar carne humana, sem contaminar-se a si mesmo.
Os "aeons", ou poderes angelicais, estavam no mesmo pé de igualdade com Cristo,
e este tinha sua estatura diminuída. Os gnósticos não reconheciam a existência
do Deus Triúno, e o Único que, com razão pode ser adorado pela criatura humana.
Contudo, hoje o que mais temos visto é uma adoração, ou seria, uma exaltação aos
anjos. Músicas lhe são prestadas, e visões confirmam a sua presença em cultos,
onde eles descem, sobem, rodeiam a igreja, se instalam em pontos estratégicos da
mesma, aumentando o poder e a autoridade da ministração.
Além disso, os gnósticos tinham incorporado alguns elementos das leis
cerimoniais judaicas, aumentando as suas tendências ascéticas, criam que o
desígnio do sistema cósmico é destruir toda a matéria, incluindo o corpo físico,
visto que a matéria é má. O gnóstico pode cooperar com esse desígnio abusando do
corpo, de maneira extremamente ascética ou licenciosa.
Os gnósticos tinham a idéia equivocada de que não importa o que fazemos com os
nossos corpos, pois estes seriam veículos incuráveis do princípio do pecado,
pensavam que deveriam abusar do corpo, sem que isso em nada prejudicasse a alma.
Os Colossenses optaram por um gnosticismo ascético, restrições dietéticas,
jejuns e provisões ritualistas intermináveis, eram vegetarianos e celibatários,
pregavam uma doutrina que ordenava : "não manusear", "não provar",
principalmente no que diz respeito às questões sexuais.
Assim como os gnósticos de Colossos, muitos cristãos (e suas respectivas
denominações) têm praticado um ascetismo extremado em suas igrejas. É proibição
quanto às vestes, cortes de cabelo, hábitos higiênicos: como a depilação
feminina, etc., são regras, ordenanças, tradições legalistas com objetivo de
mortificar a carne e "elevar" o Espírito.
Os gnósticos também primavam (principalmente) por um falso misticismo, um
misticismo oriental que não transformava moralmente, pois, devido às suas visões
e êxtases, eles estavam "fora" das questões morais e éticas. Eles eram os
"pneumáticos", ou os verdadeiramente espirituais, que tinham a salvação não
mediante a fé, mas, mediante o "conhecimento" (falso), aqueles que mediante
ritos sagrados, artes mágicas e misticismo, receberiam a redenção completa, a
reabsorção pelo Espírito divino, perderiam a identidade pessoal , e teriam o
"Ego" transformado em "superego".
Por fim, o que temos visto nas igrejas evangélicas hoje (em especial, no nosso
Brasil), são pastores induzindo pessoas à acreditarem no poder das "inúmeras
correntes", campanhas de "n°" dias, óleos de Israel, sal ungido ( e, também,
flores, sapatilhas, tapetes, roupas e até travesseiros ungidos); no poder das
palavras de fé - confissão positiva. Muitas igrejas são conhecidas por sua
Teologia da Prosperidade, onde a saúde perfeita, a prosperidade material, são
"provas" da satisfação de Deus para com o indivíduo; pela prática, ou seria,
pela exploração do exorcismo (estes dias ouvi de um pastor o convite para um
banho de 'descarrego' em sua igreja , durante um programa em um dos meios de
comunicação.
CONCLUSÃO
A heresia gnóstica esteve presente na igreja cristã primitiva por cerca de cento
e cinquenta anos, e oito livros do Novo Testamento foram escritos contra ela:
Colossenses, três epístolas joaninas e a epístola de Judas, além de alusões
feitas também no Evangelho de João, no livro de Apocalipse e na epístola aos
Efésios.
O gnosticismo era uma mistura de misticismo oriental, filosofia, mitologia,
astrologia, neoplatonismo grego, judaísmo e por fim, também, cristianismo. Os
gnósticos se gabavam de uma filosofia superior, sustentavam que a salvação é
fruto do conhecimento (da gnosis), e praticavam um misticismo falso, onde Cristo
não é o centro nem o "o poder mais elevado que um indivíduo busque entrar em
contato", pelo contrário, os gnósticos diminuíam a pessoa de Cristo, valorizando
coisas inferiores como seres angelicais e visões, negando a honra que cabe à
Cristo e ignorando o seu senhorio. Russell Norman Champlim, fala que "os mestres
gnósticos faziam dos poderes angelicais objetos de adoração, e também desviam as
nossas mentes para longe da posição de Cristo como cabeça; no entanto, a
condição básica para que alguém seja discípulo autêntico de Cristo é que aceite
seu senhorio (Cl 2.9)". Na verdade, muitos religiosos hoje, tem supervalorizado
a presença e atuação dos anjos nos cultos e desvalorizado a pessoa de Cristo. Já
não vale a obra expiatória de Cristo e seu sofrimento, seu sangue vertido não
foi suficiente, é preciso que o "crente-gnóstico-pneumático" se esforce em suas
práticas ascéticas, elevado misticismo, acirrada adoração aos anjos, ajudando
Cristo na obra de salvação.
Os gnósticos cristãos do passado eram ascéticos, quando não licenciosos,
adoravam anjos, não tinham idéia de expiação pelo sangue, acreditavam em uma
grande hierarquia de poderes angelicais, "aeons" que seriam mediadores entre
Deus e os homens e, elevavam a "gnosis" (o conhecimento) em contraste com a
"fé", como meio de "salvação". E as nossas Igrejas hoje, em que elas se
assemelham ao gnosticismo passado?
Podemos citar alguns exemplos de práticas gnósticas dentro da Igreja hoje, como
o uso de objetos e símbolos materiais destinados a curas e milagres, são flores,
sais e óleos ungidos. Programas evangélicos televisionados que exploram o
exorcismo de demônios, além de pedir aos telespectadores que coloquem peças de
roupas e copos de água sobre o televisor para estes serem abençoados. Ainda,
existe o "quite de beleza da rainha Ester" e o "travesseiro da ressurreição dos
sonhos"..., além das divinas revelações do inferno e do céu e a prática da
palavra positiva e de chavões como: "tá amarrado!", "queima!", etc. Kennety
Hagin, em um dos seus livros ensina: "Eu disse: em nome de Jesus (você entende,
o nome representa toda a sua autoridade e poder!) não tenho dor de cabeça. Em
nome de Jesus não vou ter dor de cabeça. E em nome de Jesus... a dor de cabeça
saiu... Alguém disse: "gostaria que funcionasse para mim". Não funciona por meio
do desejo. Funciona por meio do conhecimento". Correntes e campanhas exaustivas,
supervalorização de dons e venda de meios de graça, além do acirrado ascetismo
de algumas denominações.
Todas estas coisa nos lembra o gnosticismo combatido tão fortemente pelos
apóstolos, como o trecho de I Tm 2.5 que foi escrito para contrapor o
gnosticismo que propunha uma grande quantidade de mediadores, Cristo é o único
mediador entre Deus e o homem; quando o apóstolo fala (Cl 1. 16) que só há um
poder Criador e não vários "aeons" criadores, dignos de adoração; e que "todas"
as pessoas podem chegar ao "pleno conhecimento da verdade", e sejam salvos
mediante o sacrifício expiatório de Cristo, e não apenas os "pneumáticos" ou os
verdadeiramente "espirituais" como se consideravam os gnósticos. Além disso, no
seu combate ao gnosticismo, Paulo escrevendo aos Colossenses, salienta as ordens
angelicais (1.16), asseverando que Cristo é o seu Criador e Senhor, exigindo ele
adoração, que não pode ser conferida aos anjos (Cl 2.18), faz alusão aos
"mistérios"(1.26;22), ataca o ascetismo exagerado (2.20), dá a definição de
"sabedoria" e de "conhecimento"(2.2,3), como algo pertencente originalmente a
Cristo, sendo Ele o "pleroma", a "plenitude"(2.8,9), salienta que toda criação
encontrará em Cristo o Princípio e Fim (1.16), nega o "deísmo", pois Cristo é a
imagem e manifestação do deus invisível (1.15), senhor do Universo (2.19), além
de dá o valor à morte de Cristo como expiação e salvação para todos (1.20).
Portanto, o gnosticismo que tão preocupadamente foi combatido pelos apóstolos e
posteriormente pelos Pais da Igreja e grandes Apologistas dos primeiros séculos,
deverá ser detectado e urgentemente combatido em nossas igrejas. É uma forma de
gnosticismo/misticismo sutil, uma idéia corrosiva em "pele de cordeiro". A
igreja deve estar atenta para estes fatos e retornar com todo ardor para as
Escrituras , pois somente ela produz o Conhecimento verdadeiro , e somente
Cristo, o Filho de Deus dá salvação para o homem perdido.
Finalmente, "Creio em Deus Pai Todo-Poderoso, criador do céu e da terra. E em
Jesus cristo, seu Filho Unigênito, nosso Senhor, concebido pelo Espírito Santo e
nascido da virgem Maria; que padeceu sob Pôncio Pilatos , foi sepultado, e ao
terceiro dia ressurgiu dos mortos; que subiu ao céu e assentou-se à direita do
Pai Todo-Poderoso, de onde há de vir para julgar os vivos e os mortos.
Creio no Espírito Santo, (na igreja universal), na comunhão dos santos, na
remissão de pecados, na ressurreição da carne e na vida eterna. Amém." (Credo
Apostólico - Século III e IV)
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EUDALDO FREITAS MEDRADO