Outros Sermões Colossenses

DIFICULDADE COM TUDO QUE É DE GRAÇA
Colossenses 2.14

"Havendo riscado a cédula que era contra nós nas suas ordenanças, a qual de alguma maneira nos era contrária, e a tirou do meio de nós, cravando-a na cruz". Cl 2.14

O tempo em que vivemos é ditado pelo mercado. É extremamente competitivo, individualista e capitalista. Tudo gira em torno do dinheiro e não existe nada de graça. Talvez seja por isso a tendência que o ser humano tem de “pagar” por tudo.

Uma pessoa recebe um presente do amigo e já trata de saber a data de seu aniversário para poder retribuir o presente; é alguém que está provando de um tempo gostoso, de êxito, onde tudo está fluindo e diz: “é muito bom pra ser verdade. Belisca aqui pra ver se eu estou sonhando. Isso não vai durar muito tempo”.

O homem tem dificuldade de elaborar a graça, sente mais segurança depois que pagou, retribuiu, quando tem a sensação de direito sobre as coisas. Então ele “relaxa” na poltrona da sua competência porque não deve nada a ninguém.

A pergunta do jovem rico é a denúncia do homem moderno: “o que posso fazer para alcançar a vida eterna?” (Mt 10.17-22). Se ele não pergunta com essas palavras, ele age com essa motivação, age como se pudesse comprar as amizades, o reconhecimento, o Paraíso, as bênçãos e o amor de Deus.

Dentro de nossas igrejas, sutilmente acontece uma tentativa de negociata com o Senhor: oração bem feita com bases bíblicas, jejuns, promessas, tudo para alcançar a graça. Já pensou como seria a espiritualidade de uma pessoa se em sua vida cotidiana as disciplinas espirituais fossem levadas tão a sério como nos dias que antecedem o desafio de pregar, ministrar o louvor...? Nessas vésperas vale tudo: o sofrimento do peru; abstinência completa; o malabarismo religioso, e como diria Sérgio Pimenta, “coreografias de aflitos!”. É o “esquizofrênico espiritual” que tem duas vidas: a que ele vive para assuntos religiosos e a que ele vive para assuntos não-religiosos – dualismo.

Nada contra as disciplinas espirituais, muito pelo contrário, delas depende o nosso permanecer. Estou querendo dizer que o risco é muito grande de querer comprar uma benção de Deus, de tentar coagir, constranger o Senhor a se mover em nosso favor com as nossas práticas devocionais – mercantilismo espiritual. Isso acontece quando eu oro para ter poder, não para me relacionar com Deus; estudo a Bíblia não para conhecer ao Senhor e fazer sua vontade, mas só para fazer uma mensagem, texto ou canção; jejuo para acontecer aquilo que estou esperando, não para aguçar meus sentidos à presença do Amado.

Aí o sentimento de gratidão e o estado de dependência de Deus vão por água abaixo! Perco o sentimento de gratidão porque “Deus não está fazendo de graça, tem um motivo, eu fiz também”; perco o estado de dependência porque “não dependo somente de Deus e sim das minhas práticas”. C.S. Lewis foi muito feliz em sua frase “o diabo manda armadilhas aos pares". Fugindo de uma armadilha é possível que eu caia na outra. Com o afã de fazer a coisa certa a gente pode está fazendo da maneira errada (veja o exemplo de Paulo quando ainda era Saulo).

As disciplinas espirituais, que deveriam ser práticas que nos convertem a Deus, passam a ser pequenos deuses que cultuamos: é a fé na fé ao invés da fé no Senhor; o culto às disciplinas em nome de Deus. Investiguemos nossas motivações e intenções para não cairmos no pecado da idolatria!

Quem anda em humildade na presença do Senhor tem consciência que é eterno devedor, sabe que não pode pagar pela graça de Deus, sabe que nenhuma de sua prática aumentará o amor de Deus por ele; mas sabe também que essa dívida já foi paga nAquele que é Bom (naquele que se basta!): “... e cancelou o escrito de dívida, que consistia em ordenanças, o qual se nos opunha.” (Cl 2.14a.).

Tem gente que vive um cristianismo tão tenso por causa da obsessão de agradar a Deus que não desfruta das bênçãos já derramadas (Ef 1.3-14). Essa obsessão de “agradar” a Deus não passa de pretensão em pagar por aquilo que Ele fez! É um culto a um deus pagão: tenho que agradá-lo para aplacar sua ira ou pedir por fertilidade.

Deus não tem expectativas exageradas ao nosso respeito. Ele só espera o que Miquéias falou no cap. 6, verso 8: “Ele te declarou, ó homem, o que é bom e que é o que o Senhor pede de ti: que pratiques a justiça, e ames a misericórdia, e andes humildemente com o teu Deus”.

Mergulhemos no oceano da graça de Deus, livres de cobranças (de responsabilidade não, de cobranças), de peso (os mandamentos do Senhor não são pesados – 1 Jo 5.3b) e de dívida e aí poderemos comer o pão e beber gostosamente o vinho, pois Deus já se agrada das nossas obras. (Ec 9.7-9).