ATOS, A IGREJA EM AÇÃO
Atos
Estamos retomando nossa reflexão sobre o que é Igreja. Domingo passado abordamos
a visão de Jesus e concluímos que a Igreja tem um dono, e este se chama Jesus
Cristo, o Filho de Deus.
Hoje queremos fazer um passeio no livro de Atos dos Apóstolos. Este livros
escrito pelo médico amado, Lucas, é o único livro histórico do Novo Testamento e
traz uma visão da vida da Igreja do primeiro século.
É um engano quem pensa que temos que viver de igual modo que a Igreja primitiva.
Não é isso que vamos abordar. Há princípios que são aplicáveis a nós hoje. O
Evangelho é o mesmo, a pregação e a doutrina não mudam, mas a ação e aplicação
desta mensagem acompanham o contexto em que vivemos.
É muito importante não somente descobrirmos estes princípios, mas acima de tudo
aplicá-los de modo a viver de modo que a agrade ao Senhor da Igreja. Em tempos
de mercantilização, onde as igrejas, pastores e líderes são tentados a buscar
uma nova estratégia, em que a Igreja é mais uma empresa que uma comunidade,
precisamos voltar nossos olhos à Palavra de Deus para não nos desviarmos de Sua
vontade.
AÇÃO, NÃO ATIVISMO...
Geralmente quando falamos em ação as pessoas pensam em ativismo. O Aurélio
define ação de diversas formas. Mas encontrei algumas considerações
interessantes. Ação é o Ato ou efeito de agir, de atuar; atuação, ato, feito,
obra; Manifestação de uma força, de uma energia, de um agente; Maneira como um
corpo, um agente, atua sobre outro; efeito; Capacidade de mover-se, de agir;
Movimento, funcionamento; Modo de proceder; comportamento, atitude; Exercício da
força, do poder de fazer alguma coisa; Influência (sobre alguém ou alguma
coisa); Ocorrência, acontecimento, sucesso.
Já ativismo é diferente. Ativismo é a Doutrina que faz da atividade a essência
da realidade. Ou seja, as pessoas precisam fazer alguma coisa, a vida é guiada
por atividades, não importando se elas são produtivas ou não. E a Igreja na sua
caminhada muitas vezes confundiu ação com ativismo. Quantas vezes não fizemos
coisas sem saber o propósito do que estávamos realizando?
A Igreja de Atos nos traz alguns princípios importantes de sua ação e que
devemos aplicar em nossa realidade:
1. Princípio da Submissão.
Estar submisso significa “obediência, sujeição, subordinação; Disposição
para aceitar um estado de dependência; docilidade”. Quando leio a história da
Igreja primitiva vejo este princípio se aplicando. A submissão a Cristo era
patente. Quem dirigia a Igreja era o Senhor. O que podemos ver no livro de Atos?
Jesus, antes de subir ao céu, deu uma ordem: “Eu lhes envio a promessa de meu
Pai; mas fiquem na cidade até serem revestidos do poder do alto” (Lucas 24:49).
E foi isso que eles fizeram, pois eles tinham em suas mentes a promessa de
Cristo: “Mas receberão poder quando o Espírito Santo descer sobre vocês, e serão
minhas testemunhas em Jerusalém, em toda Judéia e Samaria, e até os confins da
terra” (Atos 1:8). Eles nada fizeram até que foram cheios do Espírito Santo.
Aliás, este é um tema muito claro em Atos: A Direção do Espírito Santo. Vemos
uma Igreja onde há plenitude do Espírito Santo, onde os dons do Espírito são os
instrumentos da vida, onde a voz do Espírito guia os crentes, assim como Jesus
mesmo tinha dito.
or vezes ficamos patinando em muitas atividades porque não ouvimos a voz do
Senhor, porque não obedecemos a sua direção. Como falamos domingo passado, a
Igreja pertence a Cristo. Ora, se a Igreja é dEle, por que nós temos que agir
como se a Igreja fosse uma coisa humana? Por que agimos como se fosse algo
nosso? Irmãos, hoje precisamos pedir perdão a Deus por algumas coisas que foram
feitas por pura motivação humana, por decisões que já tomamos sem ouvir a voz de
Cristo. Com certeza já erramos e vimos como nossos erros produziram ao invés de
fruto de glória para Cristo, tristeza e dúvida.
Quais são as características que marcam uma Igreja submissa a Cristo?
? Oração. A oração é fundamental para poder discernir a vontade de Deus. Sem
oração a Igreja morre. Quando os discípulos decidiram o substituto de Judas
Lucas diz: “Todos eles se reuniam sempre em oração...” (Atos 1:14). Foi a oração
que sustentou e livrou a Pedro na prisão: “Pedro, então ficou detido na prisão,
mas a igreja orava intensamente a Deus por ele” (Atos 12:5). As decisões desta
igreja eram envolvidas com muita oração. No culto da igreja de Antioquia o
Espírito Santo chamou Saulo e Barnabé para fazer missões. Veja o que diz Lucas:
“Assim, depois de jejuar e orar, impuseram-lhes as mãos e os enviaram” (Atos
13:3). Até a escolha de pastores nas igrejas eram feita mediante a oração, não
pela capacidade humana: “Paulo e Barnabé designaram-lhes presbíteros em cada
igreja; tendo orado e jejuado, eles os encomendaram ao Senhor, em quem haviam
confiado” (Atos 14:23).
Jesus, antes de ser preso, estava com os discípulos no Monte das Oliveiras. Ele
chamou seu pequeno grupo para orar. Infelizmente Pedro, Tiago e João dormiram no
ponto (literalmente). Jesus fez uma séria advertência: “Vigiem e orem para que
não caiam em tentação. O espírito está pronto, mas a carne é fraca” (Mateus
26:41). Isso aqui está longe de ser uma sugestão, embora muitos cristãos
imaginem – erroneamente – que seja.
Por que às vezes somos desleais com Cristo? Porque não vigiamos. Não buscamos o
poder de Deus para nossas vidas. Por que caímos em certos pecados? Porque sem a
vigilância necessária ficamos sem defesa. A oração é o momento em que deixamos
de confiar em nós mesmos e nos submetemos à direção de Deus. É o momento em que
a nossa debilidade carnal cede lugar ao espírito que se rende ao Espírito do
Senhor.
Veja a orientação do apóstolo Paulo: “Orem no Espírito em todas as ocasiões, com
toda oração e súplica; tendo isso em mente, estejam atentos e perseverem na
oração por todos os santos” (Efésios 6:18). Eu vi uma frase que dizia assim:
“Satanás treme quando vê o mais fraco santo de joelhos”. No texto de Efésios
Paulo nos dá algumas orientações interessantes:
Em qualquer circunstância devemos orar segundo a orientação do Espírito. Ou
seja, a comunhão com Deus é imprescindível para que haja orações corretas e
poderosas. A oração não é meramente um exercício humano, e sim um trabalho
conjunto entre nós e o Espírito Santo.
A oração precisa ser perseverante. Paulo diz: “com toda oração e súplica”. Aqui
encontramos uma expressão enfática, que indica uma vida de oração plena,
intensa, perseverante e ampla. A palavra grega para “oração” é proseuch/j (proseuchês),
que quer dizer “votar, implorar, anelar por”. Significa o desejo sincero da
alma, em que o crente depende de Deus, entregando-lhe a alma. E a palavra
“súplica” vem do grego deh,sewj (deêseôs), que significa “rogo, petição” . Estas
palavras juntas nos apontam para a necessidade de não desistirmos facilmente.
Temos que “orar sempre, sem jamais esmorecer” (Lucas 18:1).
A oração é companheira de dois elementos imprescindíveis. Que elementos são
estes? Atenção e intercessão. A atenção (estejam atentos) do grego avgrupnou/ntej
(agrypnuntes) aponta para a idéia de “ficar acordado, vigiar, ficar sem dormir,
ficar de guarda, ser vigilante”. A oração precisa estar atenta para aquilo que
Deus está realizando. Muitas vezes perdemos de vista a ação de Deus e acabamos
orando por coisas que Deus não está interessado. A pergunta é: Você sabe o que
Deus está fazendo agora? E a intercessão (perseverem na oração por todos os
santos) está ligada à perseverança . Geralmente gostamos de orar pelos nossos
pedidos e pouco pelos outros. Mas a oração dirigida pelo Espírito com certeza
nos fará interceder pelos nossos irmãos. Jamais podemos nos esquecer que os
nossos irmãos “em todo o mundo estão passando pelos mesmos sofrimentos” (1Pedro
5:9).
? Palavra de Deus. A Igreja precisa se fundamentar na verdade das Escrituras,
não na “verdade pessoal” de alguém. A Igreja não é dirigida por “revelações”,
mas pela Revelação que é a Palavra de Deus, Palavra Infalível firmada na pessoa
única de Jesus Cristo.
Quando lemos Atos vemos uma igreja que pregava a Palavra viva de Deus. A
mensagem era clara: Jesus é o Cristo, ressurrecto dentre os mortos e Senhor
absoluto. Na pregação de Pedro no Pentecostes três mil pessoas foram batizadas.
Depois da cura do coxo na porta Formosa, diz a Bíblia que “muitos dos que tinham
ouvido a mensagem creram, chegando o número dos homens que creram a perto de
cinco mil” (Atos 4:4). O que impulsionava esta igreja era a Palavra e sua
influência na vida das pessoas. Leia comigo este texto: “Assim, a palavra de
Deus se espalhava. Crescia rapidamente o número de discípulos em Jerusalém;
também um grande número de sacerdotes obedecia a fé” (Atos 6:7). Foi esta
Palavra de Deus que alcançou samaritanos (Atos 8:14) e gentios (Atos 11:1).
Apesar das perseguições e desafios que esta igreja enfrentava, “a palavra de
Deus continuava a crescer e a espalhar-se” (Atos 12:24).
Num mundo que perdeu os valores e que apregoa que não há nada em que se confiar,
temos o desafio de continuar pregando a Palavra de Deus. Numa geração analfabeta
das Escrituras, que vive à busca de revelações, profetas e ungidos, Deus nos
chama a continuar no fundamento firme e incontestável de Sua Palavra. Aqui nós
prezamos a mensagem clara e autêntica de Jesus Cristo. Não tenho medo de dizer
que a verdadeira revelação só existe na Bíblia. Não saia por aí atrás de
“revelações” que na verdade são “revelamentos” humanos, com o intuito de prender
as pessoas num misticismo sufocante e ignorante. Como igreja temos que ser como
a Igreja de Beréia: “Os bereanos eram mais nobres do que os tessalonicenses,
pois receberam a mensagem com grande interesse, examinando todos os dias as
Escrituras, para ver se tudo era assim mesmo” (Atos 17:11).
? A Plenitude do Espírito Santo. A Igreja de Atos é uma igreja que vive na
dimensão do Espírito. Quando falo de plenitude falo de alguém cheio do Espírito
Santo. Isso é muito comum em Atos. Jesus disse que eles receberiam o poder do
Espírito sobre suas vidas (Atos 1:8), o que de fato aconteceu, quando na festa
de Pentecostes foram cheios do Espírito (Atos 2:4). Foi cheio do Espírito que
Pedro falou diante do Sinédrio (Atos 4:8). Uma das características principais
dos homens que seriam escolhidos para cuidar da obra social da Igreja era ser
cheio do Espírito (Atos 6:5). Estevão estava cheio do Espírito quando viu Jesus
sentado à direita de Deus (Atos 7:55). Ananias impôs as mãos sobre Saulo, de
modo que ele fosse curado de sua cegueira e fosse cheio do Espírito (Atos 9:17).
Enfim, esta ação do Espírito era imprescindível.
A igreja é formada pelos seus membros, não apenas pelos pastores e líderes. A
pergunta que faço nesta noite é: Você, membro, líder, até mesmo pastores, está
cheio do Espírito? Será que podemos dizer que a nossa igreja experimenta esta
manifestação de Deus?
Por vezes falar sobre isso numa igreja batista parece ser um tabu terrível. Mas
eu quero falar da Palavra de Deus e de sua mensagem. E ela me diz que o cristão
precisa ser cheio do Espírito, caso contrário será cheio de outra coisa. É
melhor ser cheio do Espírito de Deus do que ser cheio de cerveja; melhor ser
cheio do Espírito que ser cheio de pensamentos malignos e imorais; melhor ser
cheio do Espírito do que ser cheio de malícia, engano e mentira.
Ser cheio do Espírito não é uma sugestão, é uma ordem. E a igreja só poderá
cumprir sua missão se ela obedecer a Cristo. Olhando Atos vemos que a Igreja
movia-se segundo a orientação do Espírito. Paulo, Barnabé, Pedro, João e tantos
outros pregavam de acordo com aquilo que o Espírito os guiava. Nisso eram cheios
do Espírito para pregarem, para enfrentarem desafios, para suportarem
perseguições, para manifestar algum ato miraculoso de Deus, enfim, tudo dependia
da ação do Espírito Santo.
Qualquer crente pode ser cheio do Espírito. Mas como? Indo a Jesus, que é a
fonte das águas vivas. É dEle que recebemos a plenitude do Espírito. E como não
temos sede apenas uma vez no dia, mas sempre vamos beber água, da mesma forma
buscamos a Jesus pela fé, todos os dias e momentos, suplicando: Enche-nos com
Teu Santo Espírito.
Este princípio da submissão pode ser resumido num versículo e gostaria que todos
lessem comigo: “Depois de orarem, tremeu o lugar em que estavam reunidos; todos
ficaram cheios do Espírito Santo e anunciavam corajosamente a palavra de Deus”
(Atos 4:31).
2. Princípio do Propósito.
A Igreja tem propósitos claros. Ela não está aqui sem saber de onde veio e
para onde vai. Por que existimos como igreja? Essa pergunta é fundamental se
quisermos participar da Igreja e entendê-la como projeto de Deus para a nossa
vida. O propósito de nossa igreja é sumarizado em apenas uma sentença baseada em
dois textos da Bíblia:
O GRANDE MANDAMENTO: “Respondeu Jesus: ‘Ame o Senhor, o seu Deus, de todo o seu
coração... alma... e de todo o seu entendimento’. Este é o primeiro e maior
mandamento. E o segundo é semelhante a ele: ‘Ame o seu próximo com a si mesmo’.
Destes dois mandamentos dependem toda a Lei e os profetas’.” (Mateus 22:37-40).
A GRANDE COMISSÃO: “Portanto, vão e façam discípulos de todas as nações,
batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo; ensinando-os a
obedecer a tudo o que eu lhes ordenei...” (Mateus 28:19,20). Para que você
visualize isso melhor veja este quadro:
“Ame o Senhor, o seu Deus, de todo o seu coração” – isto é ADORAÇÃO
“Ame o seu próximo com a si mesmo” – isto é MINISTÉRIO ou SERVIÇO
“Vão e façam discípulos” – isto é EVANGELISMO ou MISSÕES
“Batizando-os” – isto é incorporar em COMUNHÃO
“Ensinando-os a obedecer a tudo o que eu lhes ordenei” – isto é DISCIPULADO
Entendemos ADORAÇÃO como um estilo de vida que agrada a Deus. É mais que música
ou louvor. Significa uma pessoa que traz prazer a Deus através de uma vida
correta. Não adoramos a Deus apenas no culto dominical, mas no dia a dia. Temos
que entender que, mais importante que uma vida de culto é o culto da vida.
Já o SERVIÇO aponta para nosso ministério. Para nós cada crente é um ministro,
cada tarefa é importante, cada um é capaz de realizar alguma coisa, pois recebeu
de Deus o dom para isso. Através de nosso serviço demonstramos nosso amor às
pessoas. O melhor lugar para desenvolvermos nosso serviço é no Pequeno Grupo.
Compreendemos que os Pequenos Grupos são o coração da Igreja, em que cada membro
precisa um do outro.
Há também o EVANGELISMO, que significa compartilhar a Palavra de Deus. Milhares
de pessoas morrem todos os dias sem conhecerem a Jesus como Senhor e Salvador.
Ele morreu na cruz para salvar todo aquele que nEle crer. É por isso que nossa
Igreja não pode parar de crescer. Há milhares de pessoas sedentas da verdade que
liberta. Se nos fecharmos a esta verdade estaremos dizendo aos outros: “Vão para
o inferno!”. Cremos que nossa igreja precisa crescer grande e pequena ao mesmo
tempo.
Somos também chamados para desenvolver a COMUNHÃO. Quando alguém entrega sua
vida a Cristo e o recebe como Senhor e Salvador passa então a fazer parte da
família de Deus. O maior símbolo desse passo é o batismo, pois nele você é
inserido no Corpo de Cristo. Não há cristãos desvinculados da Igreja. Deus criou
você para ser parte de Sua família. A família de Deus vai durar para sempre, e
por isso Ele deseja ver muitas pessoas participando da comunhão da família que
Ele está formando.
E temos também o DISCIPULADO que tem como objetivo levar cada crente à
maturidade espiritual. Deus não está preocupado com quantas coisas você possa
realizar, mas o quanto mais perto do caráter de Cristo você possa estar. Tudo é
uma questão de ser, não de ter. Você pode ter um nome de cristão, ter um nome
num rol de membros, ter um cargo, mas ainda assim permanecer longe de Deus. Nós
como cristãos devemos crescer sempre, buscando sair dos princípios elementares
para a maturidade cristã. Pedro vai dizer: “Cresçam, porém, na graça e no
conhecimento de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo” (2 Pedro 3:18).
A Igreja de Atos vivia estes propósitos? Sim, sem dúvida. Observe o que nos diz
Lucas. Tive o cuidado de fazer os destaques e você não encontrará isso em sua
Bíblia: “Eles se dedicavam ao ensino dos apóstolos [Discipulado] e à comunhão
[Comunhão], ao partir do pão e às orações [Adoração]... Os que criam
mantinham-se unidos e tinham tudo em comum [Comunhão]. Vendendo suas
propriedades e bens, distribuíam a cada um conforme a sua necessidade [Serviço].
Todos os dias, continuavam a reunir-se no pátio do templo [Adoração]. Partiam o
pão em suas casas, e juntos participavam das refeições [Comunhão], com alegria e
sinceridade de coração, louvando a Deus [Adoração] e tendo a simpatia de todo o
povo. E o Senhor lhes acrescentava diariamente os que iam sendo salvos
[Evangelismo]” (Atos 2:42-47).
Queremos ser uma Igreja dirigida por propósitos, que sabe o que faz e onde quer
chegar. Quando você pega o boletim e vê o CADES isso não é apenas uma estratégia
de marketing. Queremos que você aprenda quais são os propósitos de Deus, mas
acima de tudo que você viva com estes propósitos e ajude a Igreja Batista do
Estoril a cumprir os propósitos que Cristo nos deixou e que a Igreja primitiva
viveu.
3. Princípio da Visão.
Visão significa ver além de mim mesmo. Muitos cristãos não conseguem ver
além de si mesmos. Hoje vivemos numa sociedade autocentrada, com pessoas
egoístas que pensam apenas em seu próprio conforto. Não é de estranhar que
muitos vivem fechados em si mesmos, sem querer nenhum tipo de envolvimento,
nenhum tipo de compromisso, apenas ser espectadores do “show da fé”, da mensagem
mercantilizada, da igreja-self service.
Visão implica em sair da zona de conforto, de ver o que Deus vê. Jesus já tinha
falado aos discípulos que eles seriam testemunhas “em Jerusalém, em toda a
Judéia e Samaria, e até os confins da terra” (Atos 1:8). A visão de Jesus era
global, implicando que a tarefa da Igreja é sair e influenciar o mundo ao seu
redor. Mas isso não significa que os discípulos captaram esta idéia
imediatamente. Três acontecimentos motivaram a Igreja primitiva a sair e cumprir
a visão de Jesus.
O primeiro evento foi à pregação de Estevão, que questionou a centralidade do
templo de Jerusalém e a hipocrisia dos judeus em relação à Lei, mostrando que
Jesus Cristo foi morto pela maldade deles. Estevão foi apedrejado e isso gerou
uma forte perseguição aos cristãos em Jerusalém. Diz Lucas que “Naquela ocasião
desencadeou-se grande perseguição contra a igreja em Jerusalém. Todos, exceto os
apóstolos, foram dispersos pelas regiões da Judéia e Samaria... Os que haviam
sido dispersos pregavam a palavra por onde quer que fossem” (Atos 8:1,4).
Isso nos indica algo interessante. Quando a Igreja não cumpre a visão de Deus, o
Senhor mesmo impele Seu povo de alguma forma. A perseguição foi uma permissão de
Deus, pois era necessário expandir a mensagem de Cristo. E esta perseguição foi
violenta. O verbo grego lymainomai (lumai,nomai) expressa “uma crueldade sádica
e violenta”. A morte violenta de Estevão foi o estopim. Deus vai nos mover para
cumprir Sua visão, seja de um jeito ou de outro. Com a perseguição os cristãos
fugiram de Jerusalém e por onde iam pregavam a mensagem. Queridos, vale a pena
obedecer a Deus enquanto Ele nos chama a cumprir Sua vontade.
Alguém poderia perguntar: Como Deus pôde permitir uma perseguição contra Sua
própria Igreja? A vontade permissiva de Deus está baseada no Seu conhecimento
pré-existente, bem como na Sua Soberania. Deus não pode ser acusado de maldade.
Devemos nos lembrar que até a ação do diabo está sujeita a permissão de Deus.
Ele não podia tocar em Jó até que Deus permitiu. E com a Igreja a perseguição
tinha um propósito maior. Um exemplo moderno foi o que aconteceu com a China. Em
1949 os comunistas venceram o governo da China e 637 missionários foram expulsos
e começou uma grande perseguição aos cristãos. O que parecia um desastre total
na verdade foi uma bênção. Aprenda isso: O vento aumenta a chama. Hoje a Igreja
da China é uma das maiores do mundo. Ela não tem templos, mas nas casas a Igreja
se reúne e cumpre sua missão. Não despreze a tempestade que Deus pode permitir
sobre sua vida.
O segundo evento foi à evangelização de Filipe em Samaria. A ousadia de Filipe
foi grande, pois a hostilidade entre judeus e samaritanos já durava pelo menos
1000 anos quando as dez tribos do norte de Israel se separaram da casa de Davi.
Depois piorou quando Samaria foi destruída e seus habitantes foram deportados
para a Assíria em 722 a.C. O território foi repovoado por estrangeiros e dessa
mistura racial entre israelitas e assírios surgiram os samaritanos. Depois que
os judeus voltaram do exílio para a sua terra e começaram a reconstruir o templo
eles rejeitaram quaisquer ajuda dos samaritanos. O preconceito dos judeus era
tão grande que seu desprezo chegava a extremos de os judeus nunca atravessarem a
região de Samaria. Os samaritanos eram desprezados porque eram considerados
pelos judeus como híbridos, tanto na raça como na religião, verdadeiros hereges
e cismáticos. Para que você tenha uma dimensão disso seria o mesmo de um judeu
entrar na Faixa de Gaza para evangelizar palestinos. Mas por que Filipe fez
isso? Porque compreendeu que a visão de Deus ia além de Jerusalém, além dos
judeus.
Por vezes ficamos centrados em nós mesmos. Por que estamos construindo um
templo? Não é para nosso conforto. Quem pensa que o trabalho vai diminuir quando
concluirmos a obra engana-se. Temos que olhar para além de nós mesmos. Quantas
pessoas estão ao nosso redor sem Jesus? Quantos bairros de nossa cidade precisam
ser alcançados? Quantas cidades do interior paulista precisam de Cristo? No
Brasil e no Mundo?
Alguém poderia questionar: Não temos condições de fazer tudo, por que sair daqui
se temos tantos que precisam aqui? A verdade é que a visão de Jesus implica numa
perspectiva pluridimensional. Isso nos leva ao terceiro evento.
O terceiro evento foi quando Pedro teve uma visão. Do céu descia um lençol
contendo todas as espécies de animais quadrúpedes, répteis e aves. Ele ouviu uma
voz que dizia para Pedro abater e comer aqueles animais. Pedro se negava a fazer
isso. E a voz lhe dizia: “Não chame impuro ao que Deus purificou” (Atos 10:15).
É interessante notar que Deus quebrou vários paradigmas na vida de Pedro. Quando
ele teve a visão estava na casa de Simão, o curtidor. Pessoas que trabalhavam
com peles de animais era considerado pelos judeus cerimonialmente impuros.
Depois ele tem a visão de animais considerados igualmente impuros pelos judeus e
três vezes a visão se repete com a mesma dinâmica: Não considerar impuro o que
Deus purificou. O que Deus estava fazendo? Levando Pedro à casa de Cornélio, um
gentio, temente a Deus. Nenhum judeu ortodoxo entraria na casa de um gentio, nem
convidaria para a sua casa. Mas quando Pedro vê Cornélio e sua casa cheia de
pessoas para ouvirem o Evangelho de Jesus, ele diz: “Vocês sabem muito bem que é
contra a nossa lei um judeu associar-se a um gentio ou mesmo visitá-lo. Mas Deus
me mostrou que eu não deveria chamar impuro ou imundo a homem nenhum” (Atos
10:28). Deus quebrou outro paradigma.
Irmãos, que paradigmas Deus deseja quebrar em nós? Precisamos estar centrados na
vontade de Deus, não na nossa. Nosso comodismo será abalado por Deus. Ele não
nos deixará “deitado eternamente em berço esplêndido”. Se for necessário fazer
esta igreja se mover, Ele permitirá provações na vida dos cristãos para que
estes busquem mais Sua face. Particularmente, eu não gostaria que fosse por esta
via, mas se assim for necessário, amém!
O que a Igreja Batista do Estoril pode fazer? Muito, mas seus membros precisam
olhar o Mundo com os olhos de Deus, precisam ter a visão de Deus. Precisamos
dizer como Paulo: “Todavia, não me importo, nem considero a minha vida de valor
algum para mim mesmo, se tão-somente puder terminar a corrida e completar o
ministério que o Senhor Jesus me confiou, de testemunhar do evangelho da graça
de Deus” (Atos 20:24). Isso significa que, onde estivermos, o que estivermos
fazendo, tornaremos nosso ministério. De agora em diante meus planos não mais
meus, mas de Deus. E tudo que fizer farei para a sua glória, porque o importante
não é fazer algo para mim mesmo para Deus.
4. Princípio da Esperança.
Que esperança é esta? A Segunda Vinda de Cristo. Quando Jesus estava subindo
aos céus, os anjos disseram aos discípulos: “Galileus, por que vocês estão
olhando para o céu? Este mesmo Jesus, que dentre vocês foi elevado aos céus,
voltará da mesma forma como o viram subir” (Atos 1:11).
Os primeiros cristãos viviam na expectativa de volta eminente de Jesus. Esta
esperança os movia a servir e a trabalhar mais para o Reino do que para si
mesmos. Por esta razão eles não tinham medo de morrer ou de entregarem tudo,
pois nada do que tinham era relevante diante da perspectiva da chegada do Reino
de Deus. É claro que isso gerou em muitos um certo exagero, corrigido pelos
próprios apóstolos. Mas uma coisa fica clara: Nossa esperança não está centrada
aqui.
É importante destacar que a palavra dos anjos aos discípulos contém algumas
verdades importantes para nós:
? A volta de Jesus é a certeza. Com certeza Ele virá. Sua vinda gloriosa será
vista por todos e tudo será transformado pela Presença Gloriosa de Jesus.
? Enquanto Ele não vem, temos que continuar testemunhando. Por isso os anjos
perguntam aos discípulos: “por que vocês estão olhando para o céu?”. No original
grego a expressão “para o céu?” ocorre quatro vezes nos versos 10 e 11. Era como
se os anjos dissessem que eles não deviam vasculhar o céu. Fundamentalmente era
anormal ficarem a olhar para o céu, quando eles tinham sido comissionados para
irem até os confins da terra. A terra, e não o céu, deveria ser a preocupação
deles, para serem testemunhas, não vasculhadores do céu. Assim nós também, não
devemos ter nenhuma nostalgia pelo céu, mas desenvolver uma compaixão horizontal
pelo mundo perdido, para que as pessoas que precisam de Jesus tenham a mesma
esperança que temos, que Jesus Virá outra vez.
Nutrir a esperança não é nutrir uma utopia. A nossa esperança se firma na
convicção que temos nas palavras de Jesus. A utopia é um sonho, geralmente
firmado pela mente humana.
O que não podemos é cometer dois erros perigosos: Observar a Terra ou Observar o
Céu. O que quero dizer com isso? Quero dizer que nossa esperança não é criar uma
utopia na terra, como muitos pensam em fazer. Não espere que este mundo vai
mudar, pois ele caminha para um fim determinado pelo Senhor da história. A
Igreja está na terra para testemunhar de Cristo, não para fundar uma teocracia
fundamentalista. Até porque quem virá estabelecer o Reino de Deus
definitivamente é o próprio Senhor Jesus em Sua vinda.
Também não podemos cair no erro de sonhar apenas com os prazeres celestiais. O
céu é o nosso lar, estamos a caminho do lar celestial, devemos esperar por este
lugar, entretanto não podemos nos desligar do mundo que nos cerca. Somos
chamados a caminhar neste mundo com um alvo claro, mas influenciando o mundo
como sal da terra e luz do mundo. Temos que buscar o equilíbrio, vivendo neste
mundo como testemunhas fiéis, esperando algo melhor do que temos hoje.
A.W. Tozer num artigo intitulado “Por que somos indiferentes quanto ao retorno
de Cristo?” disse que há três razões para isso:
* Uma teologia fundamentalista que deu ênfase à utilidade da cruz, e não à
beleza dAquele que morreu nela. Isto é, a relação do salvo com Cristo é
apresentada como contratual, em vez de pessoal.
* Os cristãos se sentem tão bem neste mundo que têm pouco desejo de deixá-lo. O
cristianismo tornou-se algo lucrativo. As ruas de ouro não atraem sobre aqueles
que acham fácil juntar ouro e prata no serviço do Senhor aqui na terra. A
esperança do céu é vista como um seguro na hora da morte, mas enquanto este
cristão tem saúde e conforto, por que trocar um bem que se conhece por outro que
pouco se sabe?
* A religião passou a ser uma brincadeira boa e festiva. Sendo assim, por que
ter pressa? Para muitos o cristianismo tornou-se a mais elevada forma de
entretenimento. Cristo padeceu todo o sofrimento, derramou lágrimas e carregou a
cruz. Agora muitos pensam que tem que apenas desfrutar de tudo que Ele fez.
Depois que li isto, tenho que concordar com o que Tozer afirma logo depois: “A
tribulação sempre deu sobriedade ao povo de Deus e o encorajou a buscar e a
esperar ansiosamente o retorno do seu Salvador... Deus fará com que nos
desapeguemos da terra de algum modo – do modo fácil, se possível; do difícil, se
necessário. É a nossa vez”.
Quero terminar fazendo uma observação final. Jesus foi crucificado e ressuscitou
por volta de 30 d.C. A Igreja nasceu no Pentecostes daquele ano. Quando o livro
de Atos termina falando da prisão de Paulo em Roma estamos por volta do ano 60
ou 62 d.C. Fiquei pensando sobre a história desta igreja primitiva. Em
aproximadamente 30 anos, numa época que não tinha Internet, telefones, fax,
estradas asfaltadas, aviões e muito menos a tecnologia que hoje vemos, os
cristãos já estavam espalhados em toda bacia do Mediterrâneo. Pense comigo que
estes cristãos viajaram em estradas empoeiradas e alcançaram vilas, cidades e
metrópoles. Em 30 anos Paulo tinha fundado igrejas nos maiores centros
metropolitanos da antiguidade, como Corinto, Tessalônica, Filipos e Atenas,
evangelizado grande parte da Ásia Menor e transformado o cristianismo uma
influência poderosa, cumprindo aquilo que Jesus tinha dito. Com ele os outros
apóstolos se espalharam pelo mundo, muitos deles sofrendo o martírio pelo nome
de Jesus. A pergunta que faço é: O que estamos fazendo aqui?
Igreja não é entretenimento, não é clube social, não é teatro, ninguém aqui está
representando alguma coisa. Deus chama a Igreja a influenciar este mundo, a ser
testemunha fiel dEle na vida de outras pessoas. Nós somos chamados a viver com o
mesmo espírito e os mesmos princípios de Atos: “Da multidão dos que creram, era
uma mente e um coração. Ninguém considerava unicamente sua coisa alguma que
possuísse, mas compartilhavam tudo o que tinham. Com grande poder os apóstolos
continuavam a testemunhar da ressurreição do Senhor Jesus, e grandiosa graça
estava sobre todos eles.” (Atos 4:32,33). Quem vai se dispor juntamente comigo
nesta noite a vivermos assim? Espero que você aceite o desafio de viver por um
projeto que vai durar para sempre e não algo que em pouco tempo vai ser
esquecido. Vamos orar.
http://www.batistaestoril.org/leitura_estu_ler.php?codigo=143