PÁSCOA, MEMÓRIAS DE ESCRAVIDÃO E O PREÇO DA LIBERDADE
Apocalípse 1.5
Àquele que nos amou, e em seu sangue nos lavou dos nossos pecados
Esta é sem dúvida a festa cristã mais importante do calendário litúrgico, mas
poucos dão a ela a relevância que a mesma reclama. No Brasil, particularmente no
Nordeste, dois elementos se tornaram dominantes na tarefa de simbolizar a
Páscoa: o chocolate e os espetáculos. Eu não quero diminuir o valor e a
importância de nenhum dos dois, principalmente do primeiro, mas obviamente que
ambos são periféricos e nem sequer tangenciam os grandes desafios que esta época
do ano evoca.
O chocolate não o faz, porque é uma tradição importada da Europa, que remonta ao
hábito nórdico de dar ovos decorados aos amigos neste período do ano, e acaba
falando mais ao estômago que à alma. Já os espetáculos não o fazem, porque
impressionam mais pela performance dos atores que naquele momento encenam um
drama, do que pelo conteúdo das falas e vidas envolvidas.
Para compreender o sentido da Páscoa, precisamos nos reportar ao livro de Êxodo,
ao instante mesmo em que ela foi instituída por Deus, através de Moisés
(capítulo 12). Esta é uma passagem realmente dramática e cheia de importantes
simbolismos.
O primeiro é que a Páscoa é uma ceia, algo que não se deve fazer sozinho, é um
ato da coletividade, sobretudo da família (é uma festa para ser celebrada entre
os seus).
Em segundo lugar, ela é um marco entre o estado de escravidão e a liberdade que
se anuncia próxima. Através dela nos recordamos do amargor dos dias que passamos
sob os rigores da exploração, dos dissabores de uma vida sem sentido, a serviço
dos interesses alheios, onde éramos vistos como máquina, números, contingente de
manobra, de quando fomos feitos coisa (res).
Em terceiro lugar é preciso comer de pé e vestidos para partir, como se dizendo
que somos seres “de partida”. Se há um signo supremo sobre o povo de Deus é
este, eles estão “de partida”.
Mas o mais importante símbolo da Páscoa é o “sangue do cordeiro” que foi
aspergido sobre os umbrais das portas das casas para que o anjo da morte não
toque as famílias nelas abrigadas. A morte do cordeiro nos livra da morte dos
nossos filhos. Seu sangue em nossas portas nos protege da visita da desgraça e
da calamidade. O dia em que os cordeiros foram mortos no Egito foi o mesmo em
que morreram muitos primogênitos. Filhos queridos, sacrificados para que um povo
fosse libertado, para que um coração fosse quebrantado, para que uma profecia
fosse cumprida. É um preço caro demais. A liberdade tem um preço, e é caro.
Esperamos que nesta Páscoa nós tenhamos tempo para lembrar da época em que
éramos escravos e vivia perdidos, alheios à vida da Graça em Cristo Jesus e nos
recordemos que para que pudéssemos ter a paz com Deus que agora temos foi
preciso que o filho amado do Pai se entregasse em nosso lugar.
Feliz Páscoa!
Martorelli Dantas