APOSTASIA
2 Timóteo 3.1-7
“Sabe, porém, isto: que nos últimos dias sobrevirão tempos trabalhosos. Porque
haverá homens amantes de si mesmos, avarentos, presunçosos, soberbos, blasfemos,
desobedientes a pais e mães, ingratos, profanos, Sem afeto natural,
irreconciliáveis, caluniadores, incontinentes, cruéis, sem amor para com os
bons, Traidores, obstinados, orgulhosos, mais amigos dos deleites do que amigos
de Deus, Tendo aparência de piedade, mas negando a eficácia dela. Destes
afasta-te. Porque deste número são os que se introduzem pelas casas, e levam
cativas mulheres néscias carregadas de pecados, levadas de várias
concupiscências; Que aprendem sempre, e nunca podem chegar ao conhecimento da
verdade.” (2 Timóteo 3:1-7)
Hoje em dia, mesmo nos países onde o evangelho não é motivo de perseguição, é
possível afirmarmos seguramente que nunca foi tão difícil servir a Deus. Mesmo o
evangelho tendo se difundido e alcançado lugares outrora isolados do
conhecimento cristão, vivemos num tempo onde os ataques à igreja deixaram de ser
exclusivamente provenientes do mundo exterior. Muitas das maiores dificuldades
enfrentadas pela igreja do nosso tempo têm brotado dentro dela. Como a igreja de
Laodicéia (Apocalipse 3:18), muitas igrejas brasileiras que perderam suas vestes
de pureza, vem sendo expostas à vergonha nos meios de comunicação, com seus
líderes presos, envolvidos em crimes de lavagem de dinheiro, extorsão e diversos
outros. A igreja de Cristo nunca foi tão desrespeitada moralmente como na
atualidade. Muito diferente dos tempos de nossos pais e avós, onde os cristãos
eram reconhecidos de longe, como homens íntegros e honestos, hoje a maioria dos
líderes cristãos não tem se importado com os seus testemunhos de vida.
Se isso não bastasse, o mundo também nunca apresentou tantos impecilhos para se
servir à Deus como agora. Feiras, parques e shoppings são alguns dos exemplos de
programas tem se tornado, para muitos, mais atrativos do que passar as horas do
domingo na presença de Deus. A maioria dos cristãos é incapaz de reservar um
único dia na igreja ou em atividades evangelísticas. Para muitos, falar em
jejuns e vigílias chega a soar como fanatismo. Vivemos num tempo onde tudo é
relativizado, negociado, passível de se dar um jeito. Damos um jeito de sermos
aprovados na escola ou faculdade, um jeitinho no trabalho para ganharmos um
pouco mais e achamos que é possível também dar um jeitinho para servir à Deus da
nossa maneira, como se isso fosse possível. Se aparece algum programa com amigos
no domingo, nem pensamos duas vezes antes de faltarmos o culto, afinal “Deus
entende”. Para muitos, a igreja virou um mero local de entretenimento. Deixa
então de ser prioridade envolver-se nos trabalhos e achamos suficiente ficar
sentados nos bancos, conferindo minuto a minuto o horário no relógio o tempo
para acabar o culto. E assim, achamos que estamos servindo a Deus e fazendo Sua
vontade.
Há ainda um outro problema que confunde muita gente: a diversidade de crenças e
doutrinas nas igrejas. Se fôssemos contar a quantidade de diferentes
denominações de igrejas espalhada pelo Brasil, chegaríamos a vários milhares.
Muitas se orgulham quanto mais afastam ou diferem em sua doutrina da de outras
igrejas. Há igrejas onde mulher pode pregar, outras não. Igrejas onde a mulher
pode cortar o cabelo, outras não. Igrejas em células, outras não. Igreja que se
divide em grupos de 12, outras não. Igrejas que pregam somente a Bíblia, outras
que criam suas próprias tradições. Enfim, a diversidade de práticas e de
prioridades que cada igreja dá em seus cultos, faz com que as igrejas
“construam” um verdadeiro mercado, fazendo da fé um verdadeiro negócio (2 Pedro
2:3). Ganha o “leilão da fé” e aumenta mais o número de seus fiéis aquela igreja
que oferecer o que o “cliente” quer, a que defender as doutrinas que ele achar
mais interessante ou que pregar o que ele quer ouvir. Nesse “mercado”, a igreja
como um todo perde a credibilidade, pois o apóstolo Paulo recomendou que as
igrejas pregassem a mesma coisa, não evangelhos segmentados ou adaptados (1
Coríntios 1:10).
As próprias igrejas fazem uso muitas vezes de métodos de evangelismo de eficácia
cada vez mais duvidosa. Promovem shows, festas temáticas – a exemplo das festas
seculares – investem em publicidade e em um novo tipo de entretenimento: o
“entretenimento gospel”. Dizem que tudo no mundo é errado, proibido. Mas as
mesmas coisas que os líderes combatem, eles mesmos procuram “cristianizar”.
Freqüentar uma festa trance ou uma boite são condenáveis, mas se permite
freqüentar esses mesmos lugares se eles forem, pelo menos no nome, gospel. Com a
desculpa de atrair os que estão no mundo, muitos líderes cristãos promovem a
“cristianização” de eventos seculares mas ao mesmo tempo promovendo tais eventos
do mesmo jeito e com o mesmo ritmo de música usado no mundo, o que não
diferencia um do outro (1 Tessalonicenses 5:22). Tudo isso ao final só traz
confusão à cabeça daqueles que ainda não amadureceram no conhecimento do
evangelho, o que gera cristãos mornos, sem compromisso, que seguem apenas
movimentos, e que acabam deixando precocemente à igreja, por não verem algo de
atrativo nas práticas da igreja, que a faça realmente parecer diferente do mundo
(João 17:14).
Além disso, crescem os ataques do mundo ao evangelho de Cristo. Não é muito
difícil você encontrar algum estudioso, filósofo, ou mesmo um filme ou um
documentário que diga que o cristianismo é uma farsa, uma enganação, que Jesus
Cristo é um mito, que religiões foram todas criadas para manipular as pessoas,
que a justiça de Deus não existe e absurdos do gênero. É grande também a
quantidade de pessoas que deixam de seguir o evangelho por buscarem uma
adequação filosófica e científica na religião, ao invés de buscar o amor da
verdade (2 Tessalonicenses 2:10).
O que aumenta ainda mais o descrédito das pessoas com o cristianismo é a
crescente presença de evangélicos nos cargos políticos. Muitos se elegem
contando exclusivamente com os votos de uma grande igreja, um novo tipo de
“curral eleitoral”, quando líderes manipulam os votos de seus fiéis a candidatos
que se comprometam a defender os direitos de sua denominação. Além de se criar
um verdadeiro oxímoro com a Bíblia – cristãos se envolvendo com os negócios da
corrupta política desse mundo (2 Timóteo 2:4) –, ou ainda, se dizendo pastores e
ao mesmo tempo governantes (cometendo o mesmo erro de Saul), facilita também a
desmoralização da igreja, já que a imprensa tem o trabalho de identificar quem
são os políticos que se declaram evangélicos e a denominação a qual eles
pertencem. E quando algum destes, inocente ou culpado, está direta ou
indiretamente envolvido em alguma espécie de corrupção, eles são apontados e
“rotulados” por sua religião, como se sua opção religiosa fosse mais importante
na notícia do que seu próprio nome.
Some-se a isso a política do crescimento a todo custo das igrejas, presente em
muitas igrejas. Muitas igrejas deixaram de perseguir objetivos espirituais para
seguir tão somente objetivos numéricos. Querem “ganhar” um número X de novos
fiéis, mas não se preocupam na consolidação deste, preferindo investir seu tempo
em conquistar novos fiéis, o que gera um verdadeiro círculo de pessoas entrando
na igreja dia após dia e outro sem número de pessoas saindo da igreja e voltando
para as velhas práticas do mesmo jeito de antes, como se estivesse estado na
igreja apenas de passagem, sem saber o porquê de ter estado ali. Além disso, a
orientação à propósitos numéricos e a pouca preocupação com o ensino e
edificação do corpo acabam gerando cristãos doentes, pobres em conhecimento, que
muitas vezes nem sabem o que estão seguindo. É comum encontrarmos alguém que se
diz cristão, que diz que isso ou aquilo é do diabo, que o que eles estão falando
é a verdade, mas não sabem argumentar biblicamente o que eles dizem e seguem,
sendo meros reprodutores das palavras que ouvem dos pregadores. Muitos são tão
ignorantes em princípios básicos de fé quanto os que estão fora da igreja.
Uma das grandes causas desses fenômenos que tem acontecido na igreja tem sido
também a mudança de prioridades. Em muitas igrejas, a pregação da sã doutrina
foi suplantada há muito pela Teologia da Prosperidade. Milhões de cristãos cuja
motivação ao irem para a igreja é usufruir de um Deus de bênçãos, que pode lhe
fazer ser bem sucedido financeiro, como se o propósito de Deus para todos os
seus filhos fosse esse. Essa troca de ensinos só tem cooperado para o
enfraquecimento dos cristãos da igreja, que pouco amam a Deus e pouco trabalham
na obra, pois o foco agora é ser próspero, numa noção arcaica e ultrapassada de
que ser cristão e rico fosse um sinal de ser um “escolhido” e salvo por Deus.
Esse mesmo tipo de pregação tem gerado crise nas chamadas práticas de “bom
samaritano”, dentro da igreja. Os próprios cristãos, numa contradição
existencial, passaram também a ser “amantes de si mesmos, avarentos, [..] sem
amor para com os bons, [...] tendo aparência de piedade, mas negando a eficácia
dela.” Pouco são os que estão na igreja e tem iniciativa em ajudar um irmão
necessitado. Nesse tipo cristianismo individualista que contaminou a muitos,
fica difícil associar muitas igrejas de hoje à igreja primitiva, pois no nosso
tempo, muitos se enganam ao achar que devem somente agradar a Deus, e que isso é
possível sem servir o próximo (Romanos 15:2).
Em face disso, não restam dúvidas que o tempo da apostasia já está instalado em
nosso tempo e o pecado tem tomado conta inclusive de muitas igrejas. E é por
essas e outras que eu tenho absoluta certeza de que estamos muito perto do tempo
em que Deus virá julgar este mundo e aqueles que dizem ser parte do Seu povo.
“Aconselho-te que de mim compres ouro provado no fogo, para que te enriqueças; e
roupas brancas, para que te vistas, e não apareça a vergonha da tua nudez; e que
unjas os teus olhos com colírio, para que vejas. Eu repreendo e castigo a todos
quantos amo; sê pois zeloso, e arrepende-te. Eis que estou à porta, e bato; se
alguém ouvir a minha voz, e abrir a porta, entrarei em sua casa, e com ele
cearei, e ele comigo.” (Apocalipse 3:18-20)
Nilson Júnior