A ARTE DE MORRER BEM-AVENTURADO
2 Timóteo 1.10
Nosso Salvador Cristo Jesus,
o qual não só destruiu a morte,
como trouxe à luz a vida e a imortalidade,
mediante o evangelho (2 Timóteo 1.10).
Queremos refletir sobre um tema pouco comum: A arte de morrer bem-aventurado (ars
moriendi). Um tema que interessa a jovens, adultos e idosos. Normalmente fugimos
desse tema, mas precisamos abordá-lo.
Quem já presenciou os minutos finais de uma pessoa moribunda, sua luta pela
vida, o pavor da morte, o suor a brotar-lhe pela testa, a respiração ofegante, o
segurar da mão de um parente, como quem pede ajuda – e familiares em seu
derredor sentindo-se impotentes diante do amargo poder da morte – este sabe como
é importante estar sempre bem preparado, para este momento da morte.
A sombra do poder da morte, na verdade, nos cerca e amedronta todo o dia. O
choro de uma criança e sua pergunta angustiante: Mãe, vou morrer? O chiar dos
pneus de um carro. O grito de dor de alguém. As sirenes de ambulâncias, da
polícia, dos carros de bombeiros, que nos fazem arrepiar a espinha,
estarrecidos. Ou, então, no silêncio da noite, a manifestação de uma dor e o
angustiante medo da morte. Compreenderemos, então, a oração do salmista:
“Ensina-nos a contar os nossos dias, para que alcancemos coração sábio” (Salmos
90.12).
Nesse ensino, sobre a arte de morrer bem-aventurado, não nos interessam as
teorias filosóficas, como a de Sêneca (a morte é o fim), nem dicas da
psicologia, como as de Elisabeth Kübler-Ross, ou teorias do pensamentos
positivos, que são ilusões e enganos; mas queremos ir à fonte, ao autor da vida,
Cristo e sua palavra, e ver o (1) que é a morte, (2) o vencedor da morte, (3) o
evangelho da vida, no qual (4) a fé se firma.
1. A morte.
O que é a morte? Por que ela apavora tanto? Alguns a julga natural, outros a
consideram uma libertação. O que diz Deus? Deus disse a Adão e Eva ao colocá-los
no paraíso: “De toda árvore do jardim comerás livremente, mas da árvore do
conhecimento do bem e do mal não comerás; porque, no dia em que dela comeres,
certamente morrerás. (Gênesis 2.16-17). A saber, serás separado de Deus. Eles
pecaram. O pecado os separou de Deus. Por isso o salmista atesta: “Somos
consumidos pela tua ira e pelo teu furor, conturbados. (Salmos 90.7). Sim, a
morte é uma intromissora. Não fomos criados para a morte, mas para a vida. Vida
com saúde, força, sem doença nem dor, em plena felicidade. O apóstolo Paulo
afirma: “Por um só homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado, a morte, assim
também a morte passou a todos os homens, porque todos pecaram” (Romanos 5.12).
“O salário do pecado é a morte” (Romanos 6.23).
Mas a morte não é simples castigo sobre uma ou outra transgressão. Já nascemos
com o pecado original, separados de Deus e réus da morte eterna.
Infelizmente, também aqui há uma inversão de valores. Teme-se mais o morrer do
que a morte. Teme-se perder as coisas, a dor da morte, mas não se pergunta pelo
“depois da morte,” pelo que acontece após a morte.
Outros tantos são iludidos por doutrinas falsas como a reencarnação, ou o dito
popular: Com a morte tudo acaba. Só os que têm “olhos iluminados” (Ef 1.18) pela
palavra de Deus, compreenderão o verdadeiro poder da morte, que, por causa do
pecado, lança a pessoa, sob a ira de Deus, à eterna separação de Deus, ao
inferno. “Ali haverá choro e ranger de dentes” (Mateus 22.13). Um sofrimento
horrível, terrível, eterno, sem esperança.
Esta idéia choca, revolta e levanta em nós uma série de indagações: É possível?
Como pode o Deus de amor criar o inferno? Como podem erros temporais, trazer
castigos eternos? Sim, nossa razão, inimiga de Deus por natureza, é pródiga em
levantar perguntas e acusações a Deus, tentando fugir e ignorar a realidade.
Mas, não há como fugir. Deus chama as pessoas de volta à sua presença. É ele que
tira o nosso fôlego (Sl 104.29) e diz: “Tornai, filhos dos homens” (Sl 90.3).
“Pois aos homens está ordenado morrerem uma só vez, vindo, depois disto, o
juízo” (Hebreus 9.27).
Portanto, a causa mortis não é o laudo médico, mas a ira de Deus. O médico só
pode atestar a morte física, mas o que realmente é e acontece na morte, o médico
não pode atestar. O quando, como e onde morrer é determinado por Deus.
O que acontece na morte? A alma se separa do corpo. O corpo, sem vida, é deitado
na terra e volta ao pó da terra, onde aguarda o grande dia da ressurreição. Mas
a alma, que é imortal, dá o passo para a eternidade. Comparece, imediatamente,
diante do trono e presença de Deus para julgamento. Este julgamento torna a
morte tão angustiante. Os profetas falam do estado dos incrédulos após a morte e
afirmam: “Os mortos não louvam o SENHOR, nem os que descem à região do silêncio”
(Salmos 115.1). Onde não se louva mais a Deus, ali é o inferno.
Graças a Deus, a mensagem da Bíblia não termina aqui. Ela mostra também a
sublime libertação do poder da morte que Deus nos proporcionou em Cristo.
2. Cristo venceu a morte.
Em Cristo Deus amou e ama a humanidade caída em pecado. “Porque o Filho do Homem
veio buscar e salvar o perdido” (Lucas 19.10). Jesus veio para libertar a
humanidade do pecado, da morte e do poder de Satanás. Para isso Jesus cumpriu
perfeitamente a lei, carregou nossas culpa, morrendo na cruz do Gólgota. Ele
próprio entrou na morte e sentiu em seu corpo e sua alma o pavor da morte. “Ele
disse: A minha alma está profundamente triste até à morte ... prostrou-se sobre
o seu rosto, orando e dizendo: Meu Pai, se possível, passe de mim este cálice!
Todavia, não seja como eu quero, e sim como tu queres” (Mateus 26.38-39). “E,
estando em agonia, orava mais intensamente. E aconteceu que o seu suor se tornou
como gotas de sangue caindo sobre a terra” (Lucas 22.44). Na cruz exclamou:
“Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?” (Mateus 27.46). Jesus
experimentou em seu corpo e em sua alma o poder da morte e os horrores
infernais, o abandono de Deus. Diante disto Lutero exclamou: Deus por Deus
abandonado, quem o compreenderá?
Jesus venceu a morte. Falando antecipadamente de sua morte e ressurreição ele
afirmou: “Eu vivo, vós também vivereis” (João 14.19). O apóstolo afirma: “Jesus,
o qual não só destruiu a morte, como trouxe à luz a vida e a imortalidade,
mediante o evangelho” (2 Timóteo 1.10). “Onde está, ó morte, a tua vitória? Onde
está, ó morte, o teu aguilhão? ... Graças a Deus, que nos dá a vitória por
intermédio de nosso Senhor Jesus Cristo” (1 Coríntios 15.55,57). “Mas, de fato,
Cristo ressuscitou dentre os mortos, sendo ele as primícias dos que dormem” (1
Coríntios 15.20).
3. O evangelho da vida.
Esta vitória, Jesus mandou anunciar ao mundo, “para que todo o que nele crê
não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3.16). Jesus mandou proclamar esta boa
notícia da salvação, da vida. Ele próprio afirmou: “Eu vim para que tenham vida
e a tenham em abundância. (João 10.10). “Eu sou a ressurreição e a vida. Quem
crê em mim, ainda que morra, viverá; e todo o que vive e crê em mim não morrerá,
eternamente” (João 11.25-26). “E a vida eterna é esta: que te conheçam a ti, o
único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem enviaste” (João 17.3).
Pelo evangelho sabemos, agora, que a morte é lucro para o crente. O apóstolo
Paulo afirma: “Porquanto, para mim, o viver é Cristo, e o morrer é lucro”
(Filipenses 1.21).
Em que sentido? 1. Na morte, a alma sai do corpo e está logo diante de Deus para
julgamento. 2. O crente é conduzido, imediatamente, ao lar celestial, onde há
júbilo e felicidade eterna; o incrédulo, condenado imediatamente ao inferno,
onde há choro e ranger de dentes. 3. O corpo descansa na terra e aguarda a
ressurreição do grande dia. 4. No dia do juízo final, soada a última trombeta,
todos os corpos serão ressuscitados, os que creram para a vida eterna, os
incrédulos para a eterna condenação. 5. Deus criará novo céu e nova terra, onde
habitará justiça eternamente. O apóstolo João afirma: “Bem-aventurados os mortos
que, desde agora, morrem no Senhor. Sim, diz o Espírito, para que descansem das
suas fadigas, pois as suas obras os acompanham” (Apocalipse 14.13).
Conclusão.
Crer, confiar na graça de Cristo, nisto consiste a verdadeira arte de morrer
bem-aventurado. Enquanto o dito popular afirma: Em meio à vida estamos na morte,
afirmamos pela fé em Cristo: Em meio à morte, permanecemos seguros na vida com
Cristo.
A arte de morrer, consiste nas preciosas diretrizes da fé cristãs: 1. Viver com
Cristo, pela fé em seu perdão, anunciada no evangelho. Então podemos jubilar:
“Ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte, não temerei mal nenhum, porque
tu estás comigo; o teu bordão e o teu cajado me consolam” (Salmos 23.4). 2.
Viver com Cristo, é permanecer firmado em sua palavra e resistir às opiniões e
vãs filosofias do mundo. 3. Viver com Cristo, é receber dele, por palavra e
sacramentos, diariamente novo consolo e vida. 4. Viver com, Cristo é lutar,
contra a morte, afogando, por contrição e arrependimento diário, o velho homem e
fazendo ressurgir o novo homem que vive em justiça e pureza diante de Deus, até
ser vencido o último inimigo, a morte (1 Co 15.26). Pois, “nosso Salvador Cristo
Jesus, o qual não só destruiu a morte, como trouxe à luz a vida e a
imortalidade, mediante o evangelho” (2 Timóteo 1.10). Viver com Cristo é também
viver em comunhão com a igreja, os irmãos na fé, que na hora crucial da morte
cercam o moribundo com sua presença e orações, com o consolo da palavra de Deus
e o sacramento, com carinho e auxílio.
Oração. Onipotente e sempiterno Deus, que por meio do teu amado Filho Jesus
Cristo, nos conquistaste maravilhosa vitória sobre a morte eterna. Em amor
fizeste esta mensagem do evangelho chegar até nós. Teu Espírito Santo iluminou
nossos olhos e nos conduziu à fé na graça de Cristo. Por palavra e sacramento
nos firmas e fortaleces a fé. Por todas estes dons te agradecemos humildemente,
suplicando fortalece-nos por teu Espírito Santo, para mantermos firmes esta
esperança, confessando a, também, ousadamente. Sejamos consolados nas
tribulações da vida e especialmente nos momentos finais, com a esperança da vida
eterna e da gloriosa ressurreição. Por Jesus Cristo, teu amado Filho, nosso
Salvador, que vive e reina contigo e com o Espírito Santo, pelos séculos dos
séculos. Amém.
Horst Kuchenbecker