OS FALSOS MESTRES
2 Pedro 2.1-22
1. Todo o capítulo 2 dessa carta trata de um só assunto: os falsos mestres, ou
falsos instrutores.
2. Lembremos que Pedro, no 1º Capítulo, falou sobre o verdadeiro conhecimento em
contraste com os falsos ensinamentos dos hereges. Ao falar, da maneira como
fala, no capítulo 2, sobre falsos mestres, ele está também alertando quanto ao
perigo de se seguir a falsos ensinamentos.
3. Eu quero dividir este capítulo em três partes, para estarmos melhor
estudando-o.
I. Sempre houve os falsos mestres, e sempre os haverá – 2:1
1. Pedro termina o primeiro capítulo falando sobre a profecia. Ele diz que
esta “nunca foi produzida por vontade de homem algum, mas homens santos de Deus
falaram inspirados pelo Espírito Santo”.
2. Ao iniciar o segundo capítulo, ele diz, porém, que houve falsos profetas,
homens que se diziam verdadeiros porta-vozes de Deus, quando, na verdade, não o
eram. Estes não deixaram de ser identificados como tais, pois suas mensagens
acabaram por provar sua falsidade. Houve numerosos falsos profetas. Basta uma
lida superficial em alguns livros do Antigo Testamento para comprovarmos isso.
3. Tendo lembrado isso aos seus leitores, Pedro enfatiza que, assim como houve
os falsos profetas, haveria também os falsos doutores entre eles, filhos
espirituais dos falsos profetas. É certo que Pedro tinha em mente os hereges
gnósticos quando escreveu sobre isso, e os leitores de Pedro estavam sendo
alertados para que tomassem cuidado com eles, pois o trabalho deles era:
a. Introduzir heresias de perdição – Os hereges gnósticos se ocupavam em fazer
isso, e o faziam astutamente. Eles entravam na comunidade dos crentes, firmavam
o pé, e só depois começavam a manifestar sua posição. Eles eram “maliciosos”. Os
seus ensinos foram denominados por Pedro como sendo heresias de perdição (ou
heresias destruidoras), porque elas destruíam tanto a verdadeira doutrina no
coração dos que eram engodados por elas, quanto o seu caráter.
b. Negar o Senhor que os resgatou – Essa era outra ocupação dos hereges
gnósticos. Como vimos um pouco mais atrás, eles negavam a soberania de Cristo,
como ela é afirmada pelas Escrituras, e o reduziam a uma “emanação” da divindade
(uma das menores ainda). Cristo para eles era apenas um “senhorzinho” dentre
muitos senhores.
4. Devido a isto, diz Pedro, eles estavam trazendo sobre si mesmos repentina
perdição. Eles imaginavam que o seu sistema filosófico-religioso, por eles
mesmos criado, os levaria à salvação. Mas Pedro diz que o que os aguardava era
uma repentina perdição. O destino deles era o inferno, e não o céu.
5. Esses falsos mestres sempre existiram, e sempre existirão. Hoje em dia temos
muitos espalhados por aí. Para citar só um exemplo, há alguns, conhecidos
popularmente como Mórmons, que ensinam, dentre muitos assuntos, sobre Jesus:
a. Que ele é um ser criado, irmão de Lúcifer;
b. Que ele é um dentre muitos deuses, e de menor importância;
c. Que a sua concepção se deu através de um ato sexual físico entre o Pai e
Maria;
d. Que ele era polígamo.[1]
6. Nós temos que estar alertas, pois, como os gnósticos da época de Pedro, os
hereges de hoje, são sutis, e têm conseguido enganar a muitos.
7. Eles existem aos milhares, como sempre existiram e sempre (enquanto Cristo
não voltar) existirão, e, muitas das vezes, como enfatiza Pedro, eles estarão
“entre vós”.
II. Os falsos mestres sempre foram e sempre serão seguidos por muitos – 2:2
1. Pedro diz, no v. 2, que muitos haveriam de seguir as dissoluções daqueles
falsos mestres, e, em conseqüência disto, o caminho da verdade seria blasfemado.
Champlin faz o seguinte comentário: “Os próprios mestres falsos haveriam de
difamar a ética cristã e sua doutrina de santidade. Mas os de fora, contemplando
a igreja a conduzir-se como um bordel, e seus “líderes” agindo como se fossem os
gerentes do mesmo, haveriam de zombar do caminho cristão, e com razão”[2]
2. E assim foi. Os falsos mestres apareceram e, deturpando as Escrituras,
pervertendo as doutrinas, usando os próprios escritos apostólicos (torcendo-os,
é claro, como vemos em 3:16), enganaram a muitos, que passaram a viver em
práticas libertinas. Os falsos mestres deturparam o ensinamento da liberdade em
Cristo, fazendo as pessoas entenderem-no como sendo “liberdade da obrigação de
viver retamente”.[3]
3. Ecumênio descreveu os Nicolaítas e os gnósticos como “extremamente profanos
em suas doutrinas e conduta”. Clemente de Alexandria fala acerca das “vidas
despudoradas” dos falsos mestres, o que trazia infâmia contra o bom nome do
cristianismo.[4]
4. Esses falsos mestres eram gananciosos, e fariam de seus seguidores negócio
lucrativo. Eles “vomitariam” algumas palavras fingidas, em busca de lucro
financeiro. Eles eram comerciantes, e não profetas.
5. Hoje em dia os falsos profetas também são seguidos por muitos. E, como no
passado, muitos são considerados pelo povo em geral como sendo cristãos (ou
evangélicos), e, dessa forma, o caminho da verdade também tem sido blasfemado
nos dias atuais. Isso sem falar nos “evangélicos nominais”, que não seguem
conscientemente falsos mestres, mas também não seguem a Cristo verdadeiramente.
Estes também têm ajudado a refletir a igreja como sendo uma espécie de bordel,
para alguns. Graças a Deus porque contra a Igreja verdadeira, as portas do
inferno, ainda que coloquem alguns empecilhos, não podem prevalecer.
6. Como no passado, também hoje há os mercenários. Há de tudo o que você possa
imaginar. Há verdadeiros e descarados enganadores. Li sobre um que era poderoso
em receber revelações sobre as pessoas para quem ele pregava. Só que ele não era
um verdadeiro servo de Deus, era um farsante. Para sua infelicidade, um dia
alguém descobriu que as revelações que ele tinha não vinham de Deus, e sim de
sua esposa, que, astutamente, andava em meio ao povo e sondava alguns, para
depois passar-lhe as informações através de um comunicador como esses dos
programas de TV, que se coloca no ouvido.
7. Há igrejas que são tidas pelo povão como sendo evangélicas, e que aceitam as
práticas homossexuais e realizam cerimônias de casamento entre homossexuais. São
“evangélicos” para o povo em geral.
8. Há, entre os evangélicos, quem venda o seu corpo para revistas pornográficas,
e diz que é um “nu artístico”, e que o corpo é um produto que pode ser usado
como se quiser, e que Deus quer é o nosso espírito.
9. Fala a verdade! Que impressão de igreja evangélica você teria, se você não
fosse evangélico e não conhecesse os fatos como eles verdadeiramente são; se
você fosse uma pessoa “de fora da igreja” e visse a igreja dessa maneira?
10. O que precisam fazer aqueles que querem permanecer fiéis aos verdadeiros
ensinamentos bíblicos? Devem tomar cuidado! Muito cuidado! Cuidado com a busca
por “novidades”! Não se descuide de progredir no conhecimento da verdade. Não se
descuide da vigilância em oração. Esteja bem firmado, arraigado na verdade!
III. A perdição destes já está decretada por Deus – 2:3-22
1. Pedro é claro em afirmar, a partir do versículo 3, que a perdição destes
falsos profetas está prestes a se abater sobre eles, e será inevitável.
2. Ele ilustra isso com alguns exemplos.
3. O primeiro exemplo é o dos anjos que pecaram. Essa questão dos anjos que
pecaram é uma questão mais complexa do que a nossa mente comum pode imaginar.
Mas, não precisamos, aqui, entrar em detalhes minuciosos. A Bíblia deixa claro
que houve anjos que pecaram e que caíram de seu estado de pureza. Pedro e Judas
são idênticos ao falar sobre isso, e também há muitos outros textos que falam
sobre demônios, principados, potestades, príncipes das trevas, hostes
espirituais da maldade, e no próprio satanás como sendo anjos caídos. O
interessante neste exemplo de Pedro, é que ele fala sobre anjos que caíram, e
que não estão soltos, mas estão confinados, reservados para o dia do juízo.
Apocalipse 9:14 e 15 também fala sobre anjos que estão presos junto ao grande
rio Eufrates, e que serão soltos na hora, dia, mês e ano determinados por Deus,
para matarem a terça parte dos homens. Pedro diz que estes estão condenados,
reservados para o dia do juízo, e, da mesma maneira, hereges, como os gnósticos,
também.
4. O segundo exemplo de Pedro é o mundo anterior ao dilúvio, o mundo da época de
Noé. É outra ilustração fortíssima da qual Pedro se utiliza, pois mostra a
severidade do juízo divino. Se naquela época apenas oito pessoas escaparam, como
poderiam os gnósticos, hereges como eram, bem como todos os falsos profetas e os
que seguem seus ensinamentos profanos, escapar? Os pregadores e seguidores do
verdadeiro evangelho de Cristo dão seqüência à tradição de Noé, pregoeiro da
justiça; mas os gnósticos, bem como todos os falsos profetas e seus seguidores,
dão seqüência à tradição daqueles que pereceram no dilúvio. Uns serão salvos, e
outros, inevitavelmente, perdidos.[5]
5. O terceiro exemplo é o das cidades Sodoma e Gomorra, conhecidas por sua
depravação moral. Se elas, por causa de sua depravação moral, foram reduzidas a
cinzas, “por que pensaríamos que os praticantes dos mesmos vícios, em qualquer
época, poderiam escapar ao julgamento divino?”[6]
6. Homrighausen comenta: “Sem importar o que os homens pensem sobres esses
castigos que sobrevieram aos homens e aos anjos no passado, Pedro está
estabelecendo uma eterna verdade: a vida falsa, produzida por ensinamentos
falsos, termina em sofrimento e desastre... A sensualidade foi o espírito falso
nos residentes de Sodoma e Gomorra. Vivendo em um vale luxuriante, que os supria
de tudo quanto era bom, desviaram-se pela força dos apetites. Ezequiel diz
acerca deles: “Eis que esta foi a iniquidade de Sodoma, tua irmã: soberba,
fartura de pão e próspera tranqüilidade teve ela e suas filhas...”(Ez.16:49). O
fim foi o mesmo em cada caso. O que os anjos e os homens semeiam, isso também
colhem.”[7]
7. Nos casos do dilúvio e de Sodoma e Gomorra, algumas pessoas foram salvas: Noé
e sua família e Ló e suas duas filhas. O versículo 9 explica bem o porquê desse
fato. O Senhor sabe quem são uns e outros, os justos e os injustos, e, na Sua
sabedoria, Ele pode, ao mesmo tempo, trazer o juízo sobre uns e livrar outros,
como mostra o livro sabedoria de Salomão 10:6: “Enquanto os ímpios pereciam, a
sabedoria livrava um homem justo”[8]
8. Assim o Senhor também vai fazer no juízo final: livrar os justos e condenar
os injustos. Ele sabe quem são uns e outros. Ele vai julgar os falsos mestres e
seus seguidores, e livrar os verdadeiros crentes.
9. “Os justos podem ser vexados pelo mal, e perturbados ante a demora do
castigo; podem ser tentados a se desviarem de seu próprio curso, pois o mal
parece continuar florescendo, ao passo que o bem não é galardoado. Pedro, porém,
assegura-nos que haverá uma justa e final prestação de contas. Embora os moinhos
de Deus moam lentamente, eles moem excessivamente fino”[9]
10. A partir do v. 10 até o 19, Pedro faz um longo e pesado comentário sobre os
gnósticos e seus seguidores. Mas esse comentário encaixa-se perfeitamente em
muitos dos dias atuais. Vejamos por partes:
a. Andavam em concupiscências de imundícia;
b. Desprezavam as dominações – O próprio Cristo era desprezado por eles;
c. Atrevidos – Eles eram audaciosos, e não hesitavam em desafiar nem ao próprio
Deus com as suas atitudes;
d. Obstinados – teimosos em continuar no erro, especialmente no erro da
arrogância e do egoísmo;
e. Não receavam blasfemar das dignidades – Pedro podia estar se referindo tanto
a líderes eclesiásticos quanto a anjos. Os falsos mestres não tinham, e não têm,
respeito por eles, enquanto que os anjos, mesmo sendo maiores em força e poder,
não ousavam pronunciar juízo contra eles diante de Deus;
f. Eram como animais irracionais que seguem a natureza;
g. Assim como os animais são caçados e mortos, eles o serão também, recebendo
assim o galardão da injustiça;
h. Eram nódoas – Coisa que suja e contamina;
i. Eram máculas – “momos”, no original, dando a entender um defeito corporal que
deforma o corpo. Assim eram eles no corpo de Cristo que é a Igreja. Eles estavam
na Igreja, mas não faziam parte dela. Era como se fossem uma excrescência, um
tumor.
j. Tinham os olhos cheios de adultério;
k. Não cessavam de pecar;
l. Engodavam as almas inconstantes, aquelas almas instáveis, atraídas pela
novidade;
m. Tinham o coração exercitado na avareza;
n. Eram filhos de maldição;
o. Eram seguidores de Balaão, que, por amar o prêmio da injustiça, ensinou a
Balaque como fazer o povo Israelita se corromper;
p. Eram fontes sem água – De que valia lá onde Pedro morava, uma região
desértica, uma fonte sem água?
q. Eram como nuvens que são levadas embora pela força do vento, e não derramam a
chuva esperada;
r. Pessoas para as quais a escuridão das trevas eternamente se reserva;
s. Prometiam liberdade, quando eles mesmos eram servos da corrupção.
11. Nos versículos 20 – 22 temos uma afirmação que tem sido polemizada por
muitos. Muitos vêem aqui a possibilidade de que alguém que foi realmente salvo
possa perder sua salvação. Mas, será isso possível? Será que aquelas pessoas
realmente haviam sido salvas e se perderam? Se sim, como entender as palavras de
Jesus em João 10:27-29?
12. Vejamos o comentário de Ray Summers sobre os versículos em questão: “Essa é
uma cláusula concessiva, em que, pelo amor do argumento, a ação é presumida como
real... Presumindo, por amor ao argumento, que eles (os falsos mestres) haviam
escapado da poluição do mundo, qual é o seu estado presente? É pior do que o
anterior. Eles demonstraram a sua verdadeira natureza. É a natureza de um cão
que vomita o que o tornou doente e depois volta a comer a mesma coisa. É a
natureza de uma porca que, tendo sido lavada, volta à sujeira. O cão, na
verdade, não estava “curado” por ter vomitado (e ainda continuava sendo um cão).
A porca não estava verdadeiramente “limpa” só por ter sido lavada (e ainda
continuava sendo uma porca). As suas naturezas de cão e de porca ainda estavam
presentes. Esses falsos mestres haviam ouvido a mensagem cristã. Haviam vivido
algum tempo segundo os seus padrões elevados. Mas a sua transformação não havia
sido suficientemente radical para induzir a uma continuação desse modo de vida.
Pelo exemplo de dois animais que eram nojentos para a mente hebraica, Pedro
concluiu que esses mestres haviam simplesmente demonstrado a sua verdadeira
natureza como doentia (o provérbio do cão) e suja (o provérbio da porca). Eram
mestres que deviam ser evitados, e não seguidos.”[10]
13. Os falsos mestres sempre existiram, e sempre existirão. Eles sempre foram e
sempre serão seguidos por muitos, mas o fim deles e de seus seguidores, se Deus
não tiver misericórdia reservada para eles, é a perdição. Tome cuidado com eles,
pois muitas vezes eles vêm trajados de ovelhas, mas são lobos devoradores.
Walmir Vigo Gonçalves
[1] WELDON, John, e ANKERBERG, John – “Os Fatos Sobre os Mórmons”. Traduzido por
Neyd Siqueira. Porto Alegre – RS., Obra Missionária Chamada da Meia-Noite, 1998.
103p.
[2] CHAMPLIN, R. N. – “O Novo Testamento Interpretado Versículo por Versículo” –
Vol. 6: Tiago – Apocalipse. 10ª reimpressão, São Paulo, Editora Candeia, 1998.
Comentário extraído da p. 192.
[3] SUMMERS, Ray – em “Comentário Bíblico Broadman” – Vol.12 - Novo Testamento.
Editor Geral: Clifton J. Allen. Tradução de Adiel Almeida de Oliveira. 3ª ed.
Rio de Janeiro, JUERP, 1990.
[4] CHAMPLIN, R. N. – “O Novo Testamento Interpretado Versículo por Versículo” –
Vol. 6: Tiago – Apocalipse. 10ª reimpressão, São Paulo, Editora Candeia, 1998.
[5] Ibid., p. 198.
[6] Ibid., p. 195.
[7] HOMRIGHAUSEN, citado por R. N. Champlin, em “O Novo Testamento Interpretado
Versículo por Versículo”, vol. 6, 10ª reimpressão, São Paulo, Editora Candeia,
1998. P. 195.
[8] Citado por Champlin, em “O Novo Testamento Interpretado Versículo por
Versículo”, vol. 6, 10ª reimpressão, São Paulo, editora Candeia, 1998– p.194
[9] Ibid., p. 196.
[10] SUMMERS, Ray, em “Comentário Bíblico Broadman” : Vol. 12, Novo Testamento.
Editor Geral: Clifton J. Allen. Tradução de Adiel Almeida de Oliveira. 3ª ed.
Rio de Janeiro, JUERP, 1990 – p. 216 e 217.