O VERDADEIRO CONHECIMENTO
2 Pedro 1.3-21
1. Semana passada iniciamos o estudo nessa carta de Pedro, e, dentre o que
vimos, destaco o fato de que, no versículo 2, Pedro deseja aos seus leitores (os
que “conosco alcançaram fé igualmente preciosa...”), graça e paz multiplicadas,
porém, deixando claro que estas estão vinculadas ao pleno conhecimento de Deus,
à “epignõsis”, em contraste com a “gnõsis” dos hereges gnósticos.
2. Esse é o verdadeiro conhecimento.
3. É sobre esse conhecimento que vamos estudar um pouquinho, a partir do
versículo 3, até o final do capítulo 1.
I. O VERDADEIRO CONHECIMENTO GERA TRANSFORMAÇÃO – 1:3-11.
1. Lembremos que as pessoas para quem Pedro escreveu, de uma forma imediata,
estavam sendo assediadas pelos hereges gnósticos, conforme vimos na semana
passada.
2. Estes, que eram amantes do conhecimento (tanto que se deram, ou receberam, a
denominação gnósticos), mas que de verdadeiro conhecimento espiritual não tinham
nada, ensinavam, como vimos, a licenciosidade moral como uma das formas de
destruir o corpo, sede de todo o pecado, segundo eles.
3. Mas, em contraste com isso, Pedro mostra aos seus leitores que o verdadeiro
conhecimento de Deus gera transformação, mudanças positivas na vida do
indivíduo.
NOTA IMPORTANTE: Antes de continuarmos, convém destacar que o pleno conhecimento
de Deus só pode ter quem é Seu filho espiritual, por intermédio de Jesus; aquele
que deixou de ser “homem natural”, e se tornou nova criatura, pois, conforme diz
a Palavra de Deus: “...o homem natural não compreende as coisas do Espírito de
Deus, porque lhe parecem loucura; e não pode entendê-las, porque elas se
discernem espiritualmente. Mas o que é espiritual discerne bem tudo, e ele de
ninguém é discernido. Porque, quem conheceu a mente do Senhor, para que possa
instruí-lo? Mas nós temos a mente de Cristo”. (I Co.2:14-16)
4. Continuando, no versículo 3 temos duas revelações importantes, a saber:
1) O Divino poder de Deus nos deu tudo o que diz respeito à vida e piedade
a. Mas o que são essas coisas que dizem respeito à vida e piedade?
b. Antes, cabe-nos entender o que é piedade: Piedade é o modo de viver do
crente, com reverência diante de Deus, de acordo com os padrões de vida
cristãos. Piedade diz respeito ao modo de vida correto para um cristão.
c. Entendido isso, vamos à reposta da questão levantada.
d. As “coisas que dizem respeito à vida e piedade” são os meios de
desenvolvimento espiritual e o modo eficaz de aplicá-los.
e. Com isso Pedro está dizendo que o crente não deve viver de qualquer maneira,
principalmente numa vida de licenciosidade, frouxidão moral (como ensinavam os
gnósticos), e que Deus tem um modo de vida para ele (o crente) viver, e, não só
tem esse modo de vida, como também, pelo Seu divino poder, providencia os meios
para que esse “estilo de vida” possa ser desenvolvido.
f. Esses meios nós já os conhecemos, e eles já estão disponíveis a nós, e não
devemos ficar indo em busca de “novas revelações”, principalmente como as que os
gnósticos diziam ter.
2) O Divino poder nos deu tudo o que diz respeito à vida e piedade, PELO
CONHECIMENTO DAQUELE QUE NOS CHAMOU POR SUA GLÓRIA E VIRTUDE.
a. Esse conhecimento, que só pode ter, como já enfatizamos em nota anterior, o
verdadeiro filho de Deus, pois se trata de um conhecimento especial, fruto da
“iluminação”, uma das obras do Espírito Santo de Deus na vida do crente,
independente de sabedoria humana, é a fonte originária de tudo o mais. Você
submeteu a sua alma a Cristo como Senhor, pela fé, e recebeu um conhecimento de
Deus como só têm aqueles que isso também fizeram, e, a partir daí, está
disponível a você um caminho para trilhar, e também os meios para trilhar esse
caminho.
b. Tudo obra de Deus!
c. Deus nos chamou eficazmente para fora do mundo e para Ele mesmo; da
mortalidade para a imortalidade; para sermos participantes de Sua glória e
virtude, sua excelência moral, e não para vivermos conforme os gnósticos
apregoavam.
5. O versículo 4 mostra algo fantástico, que nos devia fazer parar para refletir
bem: Deus quer que nós que escapamos da corrupção que há no mundo, sejamos
participantes de Sua natureza.
6. Talvez esta seja uma das mais profundas declarações do Novo Testamento.
7. Tão profunda é essa declaração, que não ouvimos muitas pregações a respeito.
Poucas vezes ouvimos que salvação não consiste apenas em uma mudança de
endereço, mas, também, em uma participação da própria natureza divina.
8. Não estou dizendo que seremos “deuses”, como afirmam alguns; apenas estou
considerando o fato de que Deus quer que tenhamos participação no mesmo “tipo”,
na mesma “modalidade” de vida que Ele tem, a começar aqui, nesta vida. Vejamos
alguns outros trechos bíblicos:
“Porque aos que dantes conheceu, também os predestinou para serem CONFORMES à
imagem de Seu Filho, afim de que Ele seja o primogênito entre muitos irmãos”.
Romanos 8:29.
“Mas todos nós, com cara descoberta, refletindo como um espelho a GLÓRIA DO
SENHOR, somos transformados de glória em glória NA MESMA IMAGEM, como pelo
Espírito do Senhor”. II Coríntios 3:18.
“Por causa disto me ponho de joelhos perante o Pai de nosso Senhor Jesus
Cristo,..., para que sejais CHEIOS DE TODA A PLENITUDE DE DEUS.” Efésios 3:14,
19b.
9. Um comentarista, citado por Champlin, em o Novo Testamento interpretado
versículo por versículo, de nome Zeller, comenta:
“Isso não significa que os participantes da natureza divina serão exatamente
iguais a Deus. Deus (se) reserva para Sua Pessoa, para Si mesmo, embora
compartilhe conosco de Sua natureza. Assim como o sol reflete a sua imagem em um
lago claro ou em uma gota de orvalho, mas continua sendo o sol, assim também
Deus permanece sendo o que Ele era e é, embora tenha feito os homens
participarem de sua natureza.”[1]
10. Talvez não consigamos compreender muito bem, ou quase nada disso agora; mas
isso deveria fazer-nos refletir no fato de que a nossa redenção não significa
apenas que iremos algum dia para os céus. Ela tem dimensões tão gigantescas, que
somos incapazes de medir. E, sendo assim, o crente deveria empregar toda a
diligência, trabalhar esforçadamente (como se tudo dependesse dele) para
realizar a tarefa de CONFORMAR A SUA PRÁTICA À SUA NATUREZA.
11. Nós, crentes, temos a responsabilidade, correspondente com a natureza da
qual nos tornamos participantes, de viver retamente.
12. Devido a isso, Pedro passa a dizer que, empregando toda a diligência, temos
que buscar acrescentar em nossa vida uma série de qualidades desejáveis para a
vida cristã, sendo que a fé aparece como alicerce de todas as demais.
13. Esse “acrescentar” segue uma escala ascendente até ao amor.
14. “O arcabouço sugere a construção de um edifício de vários andares, tendo a
fé como o alicerce e o amor como telhado. Ou, em outra figura apropriada, Green
desenvolve “a escada da fé”, tendo a fé como o degrau inicial, e o amor como
último degrau” [2].
15. “FÉ denota confiança pessoal nas promessas de Deus, e serve como alicerce
sobre o qual tudo o mais é erguido. A ela deve ser acrescentada a VIRTUDE, que
denota excelência moral ou vigor na vida cristã. Em seguida deve ser
acrescentado o conhecimento ou CIÊNCIA, que significa a compreensão prática, a
fim de que a virtude não seja direcionada erradamente. O seguinte na sucessão é
o DOMÍNIO PRÓPRIO (Temperança), que, neste caso, se relaciona especialmente ao
controle dos impulsos sexuais da pessoa (já que Pedro estava pensando sobre as
práticas licenciosas ensinadas pelos gnósticos. Mas também está em foco,
certamente, o controle sobre o temperamento, o egoísmo e quaisquer outras formas
de pecado). Ele deve ser suplementado pela PERSEVERANÇA (paciência), que é a
palavra neotestamentária básica para denotar paciência; literalmente, ela
significa a capacidade para permanecer debaixo de um grande peso. A ela deve ser
acrescentada a PIEDADE, que significa semelhança com Deus e estar bem disposto
para com a natureza divina (já falei sobre isso mais atrás). Isto leva a pessoa
às qualidades gêmeas de FRATERNIDADE E AMOR (amor fraternal e caridade). Os dois
verbos neotestamentários básicos traduzidos como amar estão nestas palavras.
Fraternidade é derivada de PHILEO, que significa calorosa afeição pessoal por
outrem. Amor é derivado de AGAPAO, que significa dar supremo valor a algo.
Unidas, elas se juntam para coroar todas as virtudes da vida, que começam com a
fé.” [3] (Os parênteses não fazem parte do texto original desta citação)
16. Se em nós houverem e abundarem essas qualidades, como diz o versículo 8, não
seremos ociosos (inativos), e nem estéreis (infrutíferos), e continuaremos
crescendo no conhecimento, não meramente intelectual, e sim prático, de nosso
Senhor Jesus Cristo. Porém, se o contrário acontece, isto é, se não há essas
qualidades em nós, então, como mostra o versículo 9, somos míopes espirituais.
17. Champlin faz um comentário forte, mas real sobre isso. Veja:
“Aqueles que, espiritualmente, têm tais deficiências, são os que não têm
interesse pelo desenvolvimento espiritual. Não se “esforçam” por aumentar no
conhecimento espiritual; são teístas teóricos, mas ateus práticos. Seu interesse
se limita às coisas terrenas. Não dão nem cinco minutos por dia à inquirição
espiritual séria. Passam pouco tempo com Cristo e gastam muito tempo consigo
mesmos; razão pela qual as vantagens pessoais e este mundo lhes parecem muito
mais reais do que Cristo e o mundo eterno. Mental e espiritualmente são cegos,
pois se têm recusado a desenvolver a visão espiritual.” [4]
18. Nos versículos 10 e 11 Pedro continua enfatizando, e ele faz isso de maneira
cumulativa e cada vez mais forte, que os eleitos não devem e não podem viver da
maneira que os gnósticos apregoavam.
19. Notem que ele é mais enfático, quando diz “procurai fazer cada vez mais
(isto é, procurai com uma diligência cada vez maior, depressa, ligeiro) firme a
vossa vocação e eleição...”.
20. Pedro manda sermos ligeiros, diligentes em nosso desenvolvimento, para que
não tropecemos.
21. Porém, muitas vezes é o oposto que acontece: somos lerdos, ou até estáticos,
e às vezes até retrógrados em nosso crescimento espiritual. Parece que nós
estamos cheios de “vermes” espirituais, e, por isso, assim como uma criança que
está contaminada por verminoses, não crescemos.
22. O verdadeiro conhecimento espiritual, que, repito, não é necessariamente ou
simplesmente intelectual, e que só pode ter aquele que pertence a Jesus, gera
transformação. Se não há transformação, é porque também não há conhecimento de
Deus.
II. O VERDADEIRO CONHECIMENTO GERA CERTEZA – 1:12-21
1. João 17:3 diz: “E a Vida Eterna é esta: que te conheçam a Ti só por único
Deus, e a Jesus Cristo, a quem enviaste.”
2. Depois de falar sobre as transformações geradas pelo pleno conhecimento de
Deus, no v. 11, Pedro diz: “Porque assim vos será amplamente concedida a entrada
no Reino Eterno de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo.”
3. Quando Pedro, neste contexto, fala sobre sua morte, ele diz que vai “deixar
este Tabernáculo”.
4. Esse tipo de certeza que, não só aqui, mas em todo o Novo Testamento, é
expressado, é gerado pelo conhecimento de Deus, o verdadeiro conhecimento.
5. Pedro quer fazer com que os crentes para quem ele escreveu se lembrem disso,
e não se esqueçam nunca, para não desviarem-se para o Gnosticismo.
6. No v. 12 Pedro diz que não deixaria de exortar, e que estaria sempre pronto a
lembrar seus leitores acerca das coisas que ele estava lhes escrevendo, isto é:
a) Acerca do fato de que os que escaparam da corrupção, que pela concupiscência
há no mundo, são participantes da natureza divina;
b) Acerca do fato de que à fé deve-se acrescentar a excelência moral;
c) E acerca do fato de que precisamos ser diligentes, ligeiros em nosso
crescimento espiritual, para não tropeçarmos.
7. Seus leitores já sabiam disso, diz Pedro, mas mesmo assim ele não cessaria de
lembrar-lhes sobre isso. Enquanto estivesse neste “Tabernáculo”, diz Pedro,
despertá-los-ia com admoestações (O termo admoestação significa advertência
acerca de um perigo a ser evitado[5])
8. Pedro diz também que procuraria fazer com que mesmo depois de sua morte eles
tivessem lembrança destas coisas (com certeza ele estaria fazendo isto através
da palavra escrita, como esta carta, por exemplo).
9. Após essas palavras, Pedro faz um tipo de defesa sobre o que ele ensinava –
Leia os vs. 16-21.
10. “Pedro não havia baseado o seu ensino a respeito da vinda de Cristo em
fábulas engenhosas. Ele o baseava no fato de ter experimentado a transfiguração
de Cristo (Mt. 17:1-5; Mc. 9:2-7; Lc. 9:28-35). Fábulas engenhosas era uma
referência ao método dos gnósticos em seus ensinamentos. Dizendo ter uma
revelação especial, ou conhecimento fora do comum (gnosis, de que eles derivaram
o seu nome ), os gnósticos pensavam na divindade como uma longa série de
“emanações” da divindade superior, para quem eles tinham vários nomes. Segundo o
ponto de vista gnóstico, esta divindade mais elevada exalava de si mesma uma
emanação. Embora fosse um pouco inferior, esta ainda possuía a qualidade de
divindade. Esta emanação, por sua vez, exalava uma emanação inferior, que ainda
possuía a qualidade de divindade, porém mais removida da divindade mais elevada.
Os gnósticos consideravam Cristo uma das mais baixas, de uma longa série de
emanações da divindade. Ele estava longe do majestoso Cristo que Pedro vira na
Transfiguração. Pedro baseou o seu ensinamento em sua experiência, quando
compartilhava, com Tiago e João, da Transfiguração de Cristo. Eles haviam sido
testemunhas oculares da sua majestade. Verifique a narrativa da Transfiguração
nos evangelhos. Naquela ocasião Jesus recebeu... honra e glória, quando a voz
vinda da nuvem lhes falou. A voz foi da Glória Magnífica, isto é, do próprio
Deus. Cristo, em sua Transfiguração, foi visto como alguém que participava desta
Majestade(v.16). por ocasião de seu batismo, a voz do céu havia dito a Jesus:
“Tu és meu Filho Amado; em ti me comprazo”(Mc. 1:11). Por ocasião de sua
Transfiguração, a voz falou aos discípulos: “Este é o meu Filho Amado, em quem
me comprazo”(v.17; Mt.17:5). Aquela aparição refulgente e gloriosa de Cristo,
Pedro entendera como predição do que Cristo será quando de sua Segunda vinda. As
testemunhas oculares apostólicas dessa glória são a Palavra Profética(v.19), à
qual os leitores de Pedro devem dar atenção. A essa palavra profética, Pedro
acrescenta a Escritura profética(v.20). A ela os leitores de Pedro deviam dar
atenção como a uma candeia que alumia em lugar escuro. Considerava-se o mundo
como experimentando as trevas da noite. Nessas trevas, a Palavra de Deus,
através de seus profetas, estava brilhando como uma candeia. Ela continuaria a
brilhar até a luz da manhã. Até que o dia amanheça refere-se à Segunda vinda de
Cristo, que dará fim à escuridão do mundo, da mesma forma como o sol que raia dá
fim à escuridão da noite.”[6]
11. Só o verdadeiro conhecimento de Deus pode gerar certeza em nosso coração.
Pr. Walmir Vigo Gonçalves
[1] ZELLER, citado por R. N. Champlin, em O Novo Testamento Interpretado
Versículo por Versículo, volume 6: Tiago – Apocalipse, p. 180. 10 ª reimpressão,
São Paulo – SP, editora Candeia, 1998. 666 p.
[2] SUMMERS, Ray, em Comentário Bíblico Broadman: Novo Testamento, p. 208.
Editor Geral: Clifton J. Allen. Tradução de Adiel Almeida de Oliveira. 3ª ed.
Rio de Janeiro, JUERP, 1990. Vol. 12. 458 p.
[3] Ibid.
[4] CHAMPLIN, R. N. – O novo Testamento Interpretado Versículo por Versículo.
Vol. 6: Tiago – Apocalipse, p. 182. 10 ª reimpressão, São Paulo – SP; editora
Candeia, 1998. 666 p.
[5] SHEDD, Russel P. – Disciplina na Igreja. 1 ª ed., 3 ª reimpressão. São Paulo
– SP. Sociedade Religiosa Edições Vida Nova, 1996 – 72 p.
[6] SUMMERS, Ray, comentando II Pedro em o Comentário Bïblico Broadman : Novo
Testamento. Editor Geral: Clifton J. Allen. Tradução de Adiel Almeida de
Oliveira. 3 ª ed. Rio de Janeiro, JUERP, 1990