FALA QUE O TEU SERVO OUVE
1 Samuel 2.27-29
Sermão Oficial de Comemoração dos 100 anos do STBSB em 11/03/2008.
CONSIDERAÇÕES INICIAIS
Saúdo ao Diretor Geral do STBSB, Dr. Israel Belo de Azevedo, a todos os
representantes de segmentos denominacionais, aos docentes e discentes.
Falo da alegria do convite e da grande honra que ele representou e representa
para mim, em função da história do STBSB e da importância dele pra minha vida.
O texto básico anunciado para este momento fala de um cenário de crise e de um
momento de profunda transformação. Confesso que pensei em falar algo sobre
desafios dos tempos neo-modernos, pensei em discorrer sobre uma teologia
cientifico secular, pensei em discorrer sobre os vislumbres de um tempo
pós-denominacional. Entretanto, depois de pensar e, claro, orar, resolvi falar
de Bíblia. Afinal de contas a base das teologias saudáveis, os referenciais para
um tempo neo-moderno ou pós-moderno, bem como os referenciais para a
redescoberta da igreja, encontra-se na Bíblia. É sobre ela que quero discorrer.
“O menino Samuel ministrava perante o Senhor, sob a direção de Eli; naqueles
dias raramente o Senhor falava, e as visões não eram freqüentes (...) O Senhor
voltou a chamá-lo como nas outras vezes: ‘Samuel, Samuel’. Samuel disse: ‘Fala,
pois o teu servo está ouvindo.’ ”.
1. ANTECEDENTES DE UM TEMPO DE CRISE
Para se chegar onde pretendo neste sermão preciso voltar um pouco no tempo
que antecedeu o momento histórico de Samuel e apresentar as bases da identidade
e missão daquele povo. A história da origem de Israel como povo e nação estava
intimamente ligada à revelação do nome Yahweh (EU SOU). A lembrança constante do
grande EU SOU ou o seu esquecimento situacional determinavam ou a manutenção ou
uma situação de crise de identidade em Israel.
As leis, de uma forma geral, tinham um teor altamente moral e expressavam a
essência de Yahweh; SANTIDADE. O povo do EU SOU deveria ser santo, deveria
expressar nas dimensões da vida esse elemento de santidade. A identidade fala de
essência. Desta forma, sendo santa a essência do povo, por conseqüência sua
prática de vida também o seria.
Assim, a regulamentação das relações interpessoais era baseada no senso de
harmonia e comunhão visto nos ideais de comunhão de Yahweh com o seu povo; HESED
(amor pactual). A crença no EU SOU que é essencialmente santo nortearia as
relações multidimensionais do próprio povo. Isto seria um exemplo de uma nova e
viva identidade num mundo de frouxidão moral, ou seja, num mundo de sociedades
promiscuídas moral e espiritualmente.
Junto a isto, destaco que a responsabilidade sacerdotal era muito grande no
sentido do contato pessoal com o Senhor, no cuidado pessoal de sua relação com
ele e no ensino existencial da TORÁ a Israel, elementos fundamentais para a
solidificação da identidade de Israel.
O ideal de obediência, comunhão e bênção era normativo. Israel não deveria ter
contato com o impuro, com os povos da terra. Daí a ordem de extermínio dos
cananeus que eram religiosamente impuros.
Diante disto acima resumido afirmo que a Israel, como povo de Deus, foram dados
elementos de grande teor que criaram e formataram a sua identidade. Entretanto,
vários fatores conduziram aqueles hebreus a um momento de transição da
estabilidade sócio-religiosa para um tempo de crise, e o fato externo gerador do
problema foi o contato, ou melhor, a convivência com os cananeus. Isto aguçou a
tendência dos israelitas para busca de novas aventuras.
2. OUVINDO A VOZ DO SENHOR NUM TEMPO DE TREVAS
Algumas coisas são importantes para se observar no texto básico deste
sermão. Primeiro, o Senhor fala a Samuel exatamente à noite. Sem forçar uma
situação, o momento histórico de Israel era caracterizado como se fosse um tempo
de trevas.
Voltando um pouco no tempo, lembremos que o livro de Juízes termina com uma nota
tônica e trágica que é repetida em outras partes do livro: “Naquele tempo não
havia rei em Israel, e cada um fazia o que era certo aos seus próprios olhos” (Jz
21.25).
Samuel que vive o momento histórico da transição entre a Liga Tribal e a
Monarquia recebe a revelação num tempo em que a Palavra do Senhor era rara e as
visões eram escassas. Palavra e visão eram os meios primordiais do Senhor falar
ao povo.
Em síntese, era um tempo de egoísmos exacerbados (cada um fazia o que parecia
certo aos seus próprios olhos), trevas profundas, ausência ou quase ausência dos
meios de revelações primordiais do Senhor. Por que as coisas eram assim? Há
algumas expressões que resumem os fatos históricos de 1Samuel, e delas separo
três.
Em primeiro lugar havia “acomodação e conivência às circunstâncias”. Eli
acomodou-se ao tempo e às atitudes dos seus filhos (1Sm 2.27-29).
Em segundo lugar vem a expressão “corrupção moral e religiosa” (1Sm 2.12-17;
22). Posso dizer que os filhos de Eli que eram sacerdotes forjaram uma religião
permissiva, um Deus alienado e uma teologia liberal. Eles eram corruptos,
promíscuos religiosos e imorais. De uma fonte ruim não pode sair água boa para o
consumo.
Creio que a expressão mais forte neste contexto é: perda da autoridade moral e
espiritual. Aqui se resume grande parte dos problemas religiosos, e das crises
que vivemos em momentos pontuais tanto na vida pessoal, na igreja e em segmentos
da denominação.
3. PRENÚNCIO DE UM NOVO TEMPO.
Não estou aqui para falar meramente de problemas. Afinal de contas hoje é
dia de festa, de celebração. O que disse até agora mostra o cenário que
prenunciava algo grandioso que estava por acontecer, e tudo começou com o jovem
Samuel. Deus começa algo que muda a história sempre por alguém disponível.
Vivendo no centro geográfico e religioso da crise, Samuel não se permitiu
macular por ela. Ao contrário, acreditou que algo poderia mudar, em especial
pelo fato de se permitir ouvir a voz do Senhor sem qualquer interferência
pessoal ou de terceiros.
Também, ele pôs mãos à obra. Qual foi o seu primeiro trabalho? Além do fato de
apresentar os oráculos divinos contra a casa de Eli, Samuel foi muito mais
longe. Samuel saiu pelos caminhos de Israel, revestido pela autoridade do
Senhor, para pregar a realidade de Yahweh e o senso de exclusividade divina. Ele
sabia que este era o primeiro passo da restauração de Israel, qual seja, voltar
os olhos para o “Deus Original” (1Sm 7.2-4).
O Deus que ele pregou era o Deus puro, imaculado, não forjado pela ideologia
humana, não direcionado a interesses pessoais. É o Deus da teologia que deve ser
ensinada em especial nas instituições teológicas. Samuel era visceralmente
contra os modismos religiosos, um pseudo-vanguardismo eclesiástico ou coisas
semelhantes. Ele ensina que as crises da existência religiosa e teológica se
resolvem quando voltamos os olhos definitivamente para o Deus da Bíblia que se
revela na história, mas que não deve ser mascarado pelos processos da própria
história.
Também, Samuel se decidiu por trilhar o caminho da excelência. Este é o caminho
que trilham aqueles que querem ver mudanças verdadeiras. Aqueles que acreditam
na “realidade do Senhor”.
Samuel falou sobre compromisso duradouro com o Senhor. Ele vivia entre o mau
exemplo de Eli e seus filhos, pessoas descompromissadas com o Senhor, e o
compromisso maior com o Senhor. Samuel era homem de compromisso profundo e não
de superficialidades. Com ele raiou um novo tempo em Israel.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
O STBSB completa seu primeiro centenário de existência. Desde 1907, quando a
primeira assembléia da CBB criou o Colégio Batista que trazia no seu bojo um
Departamento de Teologia, que em 1908 receberia o nome de STBSB, são mais de
3000 diplomados que serviram e servem ao Senhor em diferentes ministérios
cristãos em vários países.
Desde o Dr. J. W. Shepard até o Dr. Israel Belo de Azevedo, atual Diretor Geral,
o STBSB indiscutivelmente, como mostra a sua história, não obstante as crises
pontuais, tem uma trajetória vitoriosa.
No início de sua trajetória vitoriosa, Samuel foi posto à prova. Foi numa
batalha contra os filisteus. Em Mispá Samuel ofereceu sacrifício ao Senhor que
agiu em função do povo de Israel, trovejando sobre os inimigos e desbaratando
seus exércitos. Ali Samuel edificou um altar ao Senhor e disse: Ebenezer; Até
aqui nos ajudou o Senhor (1Sm 7.5-17).
Há pouco tempo, quando presidia uma sessão da reunião plenária do Conselho da
CBB, exatamente na apresentação do relatório do STBSB, depois de alguns
discursos inflamados surge uma proposta de alguém para que o STBSB fosse fechado
diante de uma situação de crise financeira. Num esforço muito grande “segurei” a
proposta não permitindo que fosse a discussão pelo menos naquele momento sem que
ouvíssemos e avaliássemos alternativas outras. O quadro que me passou na mente
naquele momento é que esta minha instituição vai superar mais um momento de
dificuldade, pois ele, o STBSB, não existe pela vontade humana, mas pela vontade
divina. Por isso, qualquer decisão em relação a ele não deve ser oportunista, ou
precipitada, ou seja, lá que for. O primeiro passo é consultar a vontade do
Senhor absoluto desta instituição centenária.
Penso que é hora de olharmos para traz, de aprendermos com nossos erros e
acertos. É hora de nos despojarmos dos “deuses estranhos” que se instalaram
entre nós e de redescobrirmos ou reafirmarmos nossa identidade num novo tempo
ouvindo como servos o Senhor que fala.
Penso também que mais do que nunca é tempo de levantarmos um altar de celebração
e de louvor ao Senhor e pensando no futuro, e como inabalável fé num futuro
promissor, e com os pés no chão e a mente posta no Deus Original, dizermos: ATÉ
AQUI NOS AJUDOU O SENHOR.
Pr. David Baêta